Porque não falam os políticos do principal problema de Portugal?
O debate político em Portugal devia focar-se no essencial: a nossa convergência com a UE. Discutir se o nosso nível de vida, produtividade e riqueza estão realmente a aproximar-se da média europeia devia ser a prioridade. Perceber o seu êxito ou fracasso permite aferir a qualidade dos sucessivos governos do PS e do PSD, mas, acima de tudo, determina se os portugueses vivem melhor ou pior.
Existe também o risco de se alimentar uma falsa propaganda: afirmar que há convergência quando, no plano factual, ela não está a acontecer. Se a convergência falha, especialmente tendo em conta o volume de fundos europeus recebidos e as reformas estruturais que deveriam ter sido transformadoras, significa que algo de profundamente errado aconteceu. Este é, sem dúvida, um dos temas que todos os partidos políticos deveriam debater e assumir como fundamental.
A convergência não é apenas um indicador matemático abstrato. É o reflexo de saber se Portugal está a conseguir transformar o projeto europeu numa realidade de prosperidade partilhada ou se vivemos num fracasso maquilhado por um discurso político enganador.
Uma tese aparentemente consensual sobre o tema diz-nos o seguinte: «Sim, estamos a convergir, mas pouco e de forma frágil.» Claro que esta não é a tese do PS ou do PSD quando estão no governo, momentos em que assumem uma convergência significativa graças às suas próprias políticas e atribuem ao adversário um sucesso menor. No entanto, uma convergência fraca e lenta implica o reconhecimento de um fracasso real e de políticas erradas, muitas vezes camuflada pelo uso habilidoso dos números.
Mas e se até a fraca convergência for um falso mito, resultante de artimanhas estatísticas que nunca são verdadeiramente confrontadas? E se a melhoria da nossa qualidade de vida for ilusória?
Os números mais frequentemente utilizados pelos governos mostram que, após a forte quebra provocada pela pandemia, Portugal recuperou algum terreno face à média da União Europeia. Em 2021, o PIB per capita português, medido em Paridade de Poder de Compra (PPC), tinha caído para 75,1% da média europeia. Em 2023, esse valor subiu para 80,5%, traduzindo uma recuperação de 3,1 pontos percentuais em apenas dois anos.
Esta melhoria resultou do facto de a economia portuguesa ter crescido acima da média europeia durante esse período. Enquanto Portugal registou um crescimento real de 2,5%, a União Europeia cresceu apenas 0,4%.
Contudo, esta recuperação revelou-se limitada. Em 2025, o PIB per capita português voltou a recuar ligeiramente, passando de 82% para 81% da média da UE. Portugal permaneceu, assim, na 18.ª posição entre os 27 Estados-membros, longe do grupo das economias mais prósperas da União.
Mais importante ainda é olhar para a tendência de longo prazo. Em 2000, o PIB per capita português representava cerca de 85% da média europeia. Um quarto de século depois, continua abaixo desse valor. Durante este período, várias economias da Europa de Leste ultrapassaram Portugal, fazendo-nos descer na hierarquia económica da União Europeia.
Por isso, embora tenham existido momentos de recuperação, os dados não permitem falar de uma convergência sustentada. Pelo contrário, mostram um percurso marcado por avanços pontuais, longos períodos de estagnação e, em alguns momentos, mesmo de divergência relativamente aos nossos parceiros europeus.
Os estudos do Banco de Portugal........
