menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Como o mau capitalismo nos transforma em produtores não pagos

24 0
07.07.2026

Um amigo (LG) descreveu-me o seu almoço num centro comercial, o que nos leva ao cerne de uma evidência que já nem a esquerda debate: a de que nem todo o capitalismo é bom.

«Acabo de almoçar num sinistro "food court" de um centro comercial da zona oriental de Lisboa, enquanto fazia tempo para a abertura de um serviço público ali instalado.

Quando acabei, peguei na bandeja e preparava-me para a levar ao móvel de recolha de tabuleiros. No preciso momento em que me levanto, uma empregada de origem africana aproxima-se e diz-me: "Pode deixar, que eu levo."

Sorri e respondi, educadamente: "Deixe estar. Eu coloco. Não me custa nada."

Ela endureceu a expressão e respondeu-me, quase como se estivesse a repreender-me: "Eu levo. É assim que ganho o meu dinheiro."

Larguei o tabuleiro e deixei-a levá-lo.

Enquanto me afastava, pensando naquele episódio com o seu quê de insólito, rodeado por dezenas de pessoas absortas nos respetivos telemóveis, percebi: aquela mulher é que é esperta. Enquanto nós, clientes, fazemos gratuitamente aquilo que antes era trabalho de alguém (levantar o tabuleiro, separar o lixo, devolvê-lo ao lugar), ela entendeu uma coisa simples: se todos lhe retirarem essas pequenas tarefas, um dia deixa de ser necessária.

No meio daquele "food court" triste, talvez fosse a única pessoa verdadeiramente consciente do valor (reduzido) do seu (nosso) trabalho.»

Este episódio é uma boa porta de entrada para um fenómeno bem mais vasto. Perguntamo-nos muitas vezes o que é este novo tipo de capitalismo, extrativo e amoral, se existe, se é apenas uma invenção da esquerda ou de uma qualquer obscura visão antiliberal, mas há exemplos bem concretos. O conhecimento cada vez mais........

© SOL