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A Utopia Liberal

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16.06.2026

Saber se a vida possui um sentido objetivo, se Deus existe ou qual o propósito da nossa presença no mundo pertence a um conjunto de interrogações permanentes que dificilmente têm, para uma grande parte dos seres humanos, respostas definitivas. Mas existem também questões menos transcendentes e igualmente importantes que remetem para um debate sempre em aberto. Uma delas consiste em saber qual o melhor modo de organizar a vida em comum. Será o liberalismo, enquanto filosofia política e tradição intelectual, apenas uma entre várias possibilidades históricas ou representa uma das mais bem-sucedidas tentativas de conciliar liberdade, ordem e prosperidade? Será o destino inevitável do progresso humano?

As suas deformações contemporâneas resultam de desvios ocasionais ou decorrem logicamente dos seus próprios princípios? A questão importa. Afinal, momentos fundadores da modernidade política, como a Revolução Gloriosa inglesa, a Independência Americana ou mesmo a Revolução Francesa (sem o período do Terror), foram enformados por aquilo que podemos considerar uma orientação liberal, principalmente a procura do melhor modo de limitar o poder político perante a soberania do indivíduo.

Uma das definições menos controversas do liberalismo consiste em designá-lo como a tentativa de proteger a liberdade contra a tendência recorrente da autoridade para se expandir para além dos limites que justificam a sua existência. O problema é que o conceito de liberalismo se tornou progressivamente mais difícil de definir. Fala-se de liberalismo clássico, liberalismo social, liberalismo progressista, liberalismo cultural, libertarismo, neoliberalismo ou hiperliberalismo. O termo é frequentemente utilizado para referir realidades muito diferentes e, por vezes, incompatíveis entre si.

Ora, foi editado recentemente um dos melhores livros já publicados sobre este universo. A Utopia Liberal (Editora D’Ideias, 2026) tem a particularidade de ser de um autor português, Rui Albuquerque. Ao longo de cerca de quinhentas páginas, o autor apresenta uma exposição sistemática dos fundamentos da tradição liberal, das suas diferentes correntes e dos desafios que enfrenta no mundo contemporâneo. O resultado é uma obra rara no panorama intelectual, não apenas pela extensão ou pela erudição, mas pela tentativa de oferecer uma visão abrangente de uma tradição política frequentemente discutida e raramente compreendida na sua totalidade.

Os conceitos de liberdade, de bem comum (que nada tem a ver com o conceito de "bem público"), de política, de ideologia e de Estado, bem como os seus limites e alcance, são examinados à luz da melhor tradição do liberalismo clássico. A análise foca-se na relação entre a liberdade individual, a ordem social, a autoridade, a anarquia, o despotismo, a separação de poderes, a legalidade constitucional e a proteção de direitos fundamentais, tendo a particularidade do rigor, da clareza e da distinção.

O liberalismo é apresentado como uma filosofia de contenção do poder. A lei, a constituição, a representação política e a separação de poderes existem para impedir a transformação do Estado numa entidade absoluta. A liberdade individual constitui o seu valor político fundamental. O contrato representa a expressão mais elevada da cooperação voluntária entre indivíduos livres, enquanto a propriedade surge como condição........

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