A democracia que trata o adversário como doente
No desenvolvimento recente das democracias ocidentais, um dos fenómenos mais relevantes é a tentativa de transformação da natureza da política. Aquilo que durante a modernidade foi entendido como um espaço de confronto entre visões rivais da sociedade assume hoje uma configuração diferente.
Nas democracias liberais tardias, o regime moral terapêutico tende a substituir o modelo clássico da política. O confronto entre projetos concorrentes cede lugar a uma gestão normativa das condutas, estruturada por uma linguagem de inclusão, segurança e bem-estar psicológico.
Neste quadro, o ideal liberal apresenta-se como superação da própria política. A emergência de formas de governança supranacional exprime a ambição de substituir o conflito político por um modelo tecnocrático de administração global. A historicidade das nações, a singularidade das culturas e a pluralidade das comunidades passam assim a ser tratadas como obstáculos a uma racionalidade normativa universal.
A característica decisiva desta transformação é que o conflito político não desaparece. Sociedades complexas continuam atravessadas por divergências relativas à identidade coletiva, à soberania, à moral pública ou à organização económica. O que mudou foi a forma de interpretar essas divergências. Incapaz de reconhecer plenamente a legitimidade de projetos incompatíveis de sociedade, o liberalismo tardio tende a redefinir o conflito político como problema moral ou psicológico. O dissenso deixa de surgir como rivalidade política e passa a ser descrito como falha moral, atraso cultural ou perturbação social. O conflito não desaparece; é despolitizado.
Para compreender esta mutação é útil regressar à teoria do político de Carl Schmitt. O núcleo da política residia na distinção entre amigo e inimigo, isto é, no reconhecimento de conflitos entre coletividades portadoras de projetos incompatíveis. Decidir implicava escolher entre alternativas que não podiam ser plenamente reconciliadas por via racional ou moral.
Nas democracias contemporâneas esta dimensão tende a ser recusada. Em vez de admitir antagonismos políticos, o espaço público passa a reinterpretar o adversário como portador de uma deficiência moral ou psicológica. O debate deixa de organizar-se em torno de interesses ou visões concorrentes e passa a estruturar-se em torno da distinção entre posições aceitáveis e posições desviantes.
Esta transformação aproxima-se do que Philip Rieff designou como cultura terapêutica. Nessa ordem social, categorias psicológicas substituem progressivamente categorias morais e políticas. O poder deixa de se exercer sobretudo através da autoridade ou da proibição e passa a operar através da gestão das sensibilidades e da proteção emocional dos indivíduos.
Comparado com os totalitarismos do século XX, este regime apresenta uma diferença importante. Enquanto os regimes totalitários operavam através da coerção explícita, o regime moral terapêutico funciona sobretudo por via normativa e cultural. A sua força não reside na punição do corpo, mas na patologização da dissidência.
No século XX, o dissidente era um inimigo político. Hoje tende a ser descrito como extremista, fóbico, negacionista ou desinformado. Ao deslocar o conflito para o campo da saúde psicológica e da segurança emocional, o sistema reduz a legitimidade do interlocutor. Em vez de debate entre projetos de sociedade, surgem processos de correção moral ou exclusão social.
A crise do liberalismo não é apenas económica ou institucional, mas da própria lógica da política. Ao patologizar o conflito, não elimina o antagonismo: substitui o confronto entre projetos de sociedade por uma administração moral das consciências, onde o adversário deixa de ser rival legítimo para se tornar desvio a corrigir.
