O multilateralismo de Sánchez e a legalização dos imigrantes em Espanha
O Hezbollah matou um soldado francês
O Hezbollah matou um soldado francês que servia a força das Nações Unidas no sul do Líbano. A ONU declarou que iria abrir um inquérito para apurar as causas da morte do soldado (entretanto morreu um segundo soldado francês, que havia ficado ferido durante o ataque). O SG da ONU, António Guterres, condenou o ataque, mas foi incapaz de condenar o Hezbollah. Se tivesse sido um soldado de Israel a causar as mortes, a ONU não abria inquéritos. Condenaria Israel sem mais. E, obviamente, Guterres atacaria Israel sem qualquer hesitação. Até o Presidente francês, Macron, evitou atacar o movimento terrorista libanês.
A ONU e Guterres já deixaram de ser imparciais há muito tempo, e tornaram-se aliados do Hezbollah e do Hamas. Os historiadores dirão no futuro que a ONU, com Guterres a SG, transformou-se numa aliada do terrorismo islâmico contra Israel. Será uma leitura apropriada para o pior SG da história da ONU.
Mas o receio de Macron de atacar o Hezbollah também diz muito sobre a fraqueza do Presidente e da diplomacia francesas. Estão reféns do radicalismo islâmico que se instalou em França. A França, uma antiga grande potência mundial, deixou de definir livremente a sua política externa no Médio Oriente. O poder político francês tem medo dos imigrantes muçulmanos em França. É uma tragédia política.
O encontro soviético de Barcelona
O PM espanhol organizou a ‘Cimeira dos progressistas globais’ com o objetivo de atacar a direita espanhola, europeia e americana. Sánchez está a fazer campanha eleitoral e a ver se as sondagens viram a seu favor. Se isso acontecer, provoca eleições antecipadas. A Cimeira não teve nada a ver com progresso e justiça social. Foi uma iniciativa de Sánchez para manter o seu poder.
O convidado principal foi Lula, outro líder político em campanha eleitoral. Também quer mobilizar os progressistas brasileiros para tentar ganhar as eleições no outono, de desfecho mais incerto do que ele esperava e desejava.
O que é então o progresso para estes dois líderes ‘progressistas’? Antes demais, é a corrupção, onde se usa o poder político para permitir os amigos e os familiares ganhar dinheiro de um modo ilícito. Foi o que aconteceu, e acontece, no Brasil quando Lula é Presidente. E o que acontece na Espanha de Sánchez, com suspeitas de corrupção sobre os seus amigos e camaradas de partido, o seu irmão e a sua mulher. No Brasil, a corrupção familiar chegou ao filho de Lula, curiosamente fugido da justiça brasileira, vivendo em Madrid.
As políticas progressistas de Sánchez e Lula também incluem amizade e negócios com ditadores pelo mundo fora. Por exemplo, as amizades e os negócios do PSOE e de Lula e do PT com Chávez e Maduro. A velha cumplicidade com Fidel. Vejam o resultado das políticas ‘progressistas’ em Cuba e na Venezuela.
Mas Lula também é um amigo próximo de Putin. Nunca foi capaz de condenar a agressão militar russa contra a Ucrânia. Comparem com o modo como Lula tem atacado a guerra dos Estados Unidos no Irão. Lula também ainda não foi capaz de visitar a Ucrânia, mas já foi a Moscovo dar abraços a Putin desde que a guerra começou.
Sánchez quer criar e liderar uma frente global anti-Trump. Ora, a principal visita que fez recentemente foi à China, onde andou aos abraços e a trocar elogios com Xi. Como sabemos, a China é o exemplo de uma democracia progressista, onde há justiça social e onde se respeitam os direitos humanos. A hipocrisia das esquerdas é um poço sem fim. Usam uma linguagem moral e cheia de objetivos bonitos, mas só se preocupam com o seu poder, com os seus interesses, e com os seus e os negócios dos seus amigos e familiares.
O multilateralismo de Sánchez e a legalização dos imigrantes em Espanha
Sem qualquer coordenação com os seus parceiros da zona Schengen, Pedro Sánchez resolveu legalizar meio milhão de imigrantes ilegais em Espanha. Será que o PM espanhol não sabe que o espaço Schengen é um espaço comum europeu onde há liberdade de circulação? Não sabe que a sua decisão de legalizar imigrantes em Espanha tem causas imediatas para os outros países da União Europeia? Os novos imigrantes legais em Espanha podem agora mudar-se para Portugal, para França, para a Alemanha, para a Itália, e assim sucessivamente. É este o entendimento de Sánchez do ‘multilateralismo progressista’ que defendeu em Barcelona na véspera. É o ‘multilateralismo’ das decisões unilaterais sem respeito pelos parceiros de uma instituição multilateral.
Um dos candidatos franceses às eleições presidências, Bruno Retailleau, já afirmou que se for eleito Presidente no próximo ano fecha as fronteiras com Espanha. Houve, obviamente, uma motivação eleitoralista. Mas a verdade é que os outros países da zona Schengen têm legitimidade para fechar as fronteiras com Espanha, ou pelo menos restringir a circulação de pessoas com Espanha. O Governo português nada tem a dizer sobre isto?
O cessar-fogo no Irão
Trump decidiu estender o cessar-fogo no Irão. Na verdade, apesar das ameaças que faz para colocar pressão nos iranianos, o Presidente americano decidiu terminar com os ataques militares ao Irão. Fazer uma guerra é sempre mais difícil do que se prevê, e os custos são sempre maiores do que se calculou inicialmente. Além disso, Trump desvalorizou o poder iraniano. Foi um enorme erro desvalorizar uma potência regional e um regime a lutar pela sua sobrevivência. A soberba é uma péssima conselheira.
Mas o fim da guerra mostra também a democracia americana em funcionamento. Há limites para a recusa de Trump em ouvir a sua base de apoio e os congressistas do seu partido. A guerra no Irão foi sempre impopular para muitos líderes do movimento MAGA. A continuação da guerra durante mais tempo poderia fragmentar e dividir o movimento. Os congressistas republicanos não querem chegar às eleições intercalares com os custos da guerra a afetar os eleitores americanos.
Compare-se com o que acontece na Rússia. Se o país fosse democrático, a guerra na Ucrânia já teria acabado. Putin não teria resistido a um sistema democrático, com partidos fortes, com uma oposição vocal e com eleições livres onde os custos económicos definem muitos votos. Mas, na Rússia, a base de apoio e o partido de Putin não o condicionam. Não há oposição (ou a que há, está na prisão, ou morreu). E os russos aceitam os custos económicos sem a possibilidade de penalizar quem está no poder em eleições livres.
O ‘adiamento’ das negociações de paz
Na verdade, não houve um ‘adiamento’ das conversações de paz. Os Estados Unidos e o Irão estão a trocar propostas sobre diversas questões, como o programa nuclear iraniano, a navegação no estreito de Ormuz, as garantias de segurança e as sanções. O encontro entre iranianos e americanos no Paquistão é que foi adiado.
Além de muito enfraquecido, o regime do Irão também está dividido. Ninguém quer continuar a guerra. Mas há uma linha mais radical, a Guarda Revolucionária e os líderes teocráticos, que pretendem o fim do bloqueio morte americano no estrito de Omã, antes de novos encontros bilaterais. São estes que hoje têm mais poder no Irão. A linha moderada, composta pelos políticos civis e pelas forças armadas convencionais, querem acelerar as negociações para chegar a um acordo.
Neste momento, os bloqueios marítimos do Irão e dos Estados Unidos são as prioridades das negociações. Serão levantados brevemente, nas próximas semanas, ou não? Esta é a questão central para a economia mundial e a economia do Irão. Ninguém sabe quanto tempo o Irão resiste sem vender petróleo para a China (a sua principal fonte de receitas), nem quanto tempo demorará até o preço do petróleo chegar aos 150 dólares por barril, o que poderia levar a uma recessão mundial.
A mediação do Paquistão significa que a China está a desempenhar um papel central nas negociações. Além de ser um aliado próximo do Paquistão, a China é o maior comprador de petróleo iraniano. A liderança chinesa, obviamente, não se importa que Trump pague os custos por uma guerra à qual Pequim se opôs desde o início. Mas há um limite para o bloqueio à navegação livre no estreito de Ormuz. A China é a maior potência comercial do mundo e a sue economia depende das exportações (o consume interno chinês é insuficiente para manter o crescimento económico). Entre 80% a 90% do comércio mundial é feito através dos oceanos. O bem-estar económico chinês exige a livre circulação marítima. Por isso, os seus dirigentes têm afirmado nos últimos dias que é essencial restabelecer a liberdade de navegação em Ormuz.
A aliança com o Irão é importante para a China, mas a relação com a Arábia Saudita é igualmente fundamental. Os sauditas vendem mais petróleo à China do que o Irão, o que também exige o fim dos bloqueios navais em Ormuz. Duas coisas parecem certas. A importância da China no Golfo vai aumentar. E a presença da Rússia vai diminuir. A China irá substituir a Rússia como o principal aliado do Irão. Ninguém se admire se as garantias de segurança ao Irão tiverem uma assinatura chinesa.
