Venezuela dilacerada entre catástrofes
As imagens televisivas mostram prédios que se esboroaram e a desolação de quem socorre recorrendo às próprias mãos. No momento em que escrevo há apenas uma certeza: dois sismos de grande magnitude atingiram no espaço de segundos a Venezuela e o balanço de vítimas poderá ser muito pesado.
Na véspera da tragédia o Financial Times dava nota de outra, uma dívida de 240 mil milhões de dólares, um valor muito superior ao que se pensava, num momento em que o país se lança na maior reestruturação soberana da história, ultrapassando a Grécia de 2012.
A Venezuela é um caso de estudo perfeito do fracasso de uma experiência socialista. Hugo Chávez entrou em cena na política como quem abre uma janela num quarto abafado. Não vinha das salas acarpetadas das elites; trazia no casaco o cheiro do quartel e, nos olhos, a cartografia da desigualdade. Foi acenando um projeto de esquerda – primeiro esboço, depois mural – à medida que estreitava laços com a ilha de Fidel e outros regimes de fé semelhante. A bonança do petróleo encheu cofres, pagou promessas, comprou silêncio e lealdades. Com dinheiro e músculo, reescreveu a Constituição, redesenhou o........
