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Se não resolvermos... Quem resolve?

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17.04.2026

Portugal habituou-se à perigosa ideia de que o tempo resolve aquilo que as lideranças não conseguem enfrentar. Década após década, acumulam-se diagnósticos certeiros, relatórios exaustivos e promessas reiteradas – mas a execução, essa, continua a falhar. E quando a execução falha sistematicamente, não estamos perante um problema técnico. Estamos perante um problema estrutural.

Ouvimos recentemente a narrativa de Luís Montenegro que o país atingiu «serviços máximos». A afirmação é politicamente conveniente, mas não resiste ao teste da realidade. Portugal não está em serviços máximos – está, isso sim, preso aos mesmos constrangimentos de sempre, a enfrentar os mesmos bloqueios administrativos, a reproduzir os mesmos atrasos estruturais. E, talvez mais grave, continua a justificar esses falhanços com as mesmas desculpas e os mesmos discursos de circunstância. A falta de seriedade do discurso tem sido uma constante nas diferentes legislaturas.

Se olharmos com frieza, o país não sofre de falta de talento, nem de ausência de recursos estratégicos. Sofre, isso sim, de um bloqueio persistente na capacidade de transformar intenção em resultado. A política tornou-se, em larga medida, um exercício de gestão do curto prazo, refém de equilíbrios internos, agendas partidárias e uma cultura de sobrevivência que penaliza qualquer tentativa séria de reforma.

O mais inquietante não é a existência de divergências ideológicas – essas são naturais e até desejáveis numa democracia viva. O problema reside na incapacidade transversal de romper com modelos que já provaram não funcionar. Reformar a administração pública, simplificar processos, libertar a economia de entraves desnecessários, apostar de forma consistente na qualificação, modernizar o processo na justiça – tudo isto é amplamente consensual no discurso. Mas raramente se traduz em ação consequente. E quando a ação não acontece, o país paga o preço: crescimento anémico, fuga de talento, desmotivação coletiva. Uma sociedade que perde confiança na sua capacidade de evoluir entra, inevitavelmente, num ciclo de resignação.

Mas a história mostra-nos que os momentos de maior estagnação são também aqueles que antecedem as grandes transformações. Não porque o sistema se reforme a si próprio – raramente o faz – mas porque surgem novas formas de pensar, novas lideranças e novas estruturas capazes de romper com o que está instituído.

A questão, portanto, não é se Portugal precisa de mudar. Isso é evidente. A verdadeira questão é se estamos dispostos a criar as condições para que essa mudança aconteça.

Mudanças estruturais exigem mais do que boas intenções. Exigem coragem política, independência face aos interesses instalados e, sobretudo, um compromisso inequívoco com o mérito e a execução. Exigem uma cultura de responsabilidade onde resultados contam mais do que narrativas. Exigem consciência coletiva e acima de tudo, vontade e coerência coletiva.

Considero que há um espaço crescente – e cada vez mais evidente – para uma nova abordagem à vida pública. Uma abordagem que não se prenda a dicotomias estéreis entre esquerda e direita, mas que se concentre naquilo que verdadeiramente importa: fazer funcionar. Fazer melhor. Fazer acontecer.

Não se trata de rejeitar o passado, mas de reconhecer, com lucidez, que os instrumentos atuais não estão a produzir os resultados necessários. E quando os instrumentos falham, é racional – e até inevitável – procurar alternativas. A energia transformadora de uma sociedade não desaparece; apenas aguarda um catalisador. Um projeto que mobilize os que já não se revêm no imobilismo, que recupere a ambição coletiva e que devolva ao país a convicção de que é possível fazer diferente – e melhor.

Portugal não precisa de mais promessas. Precisa de execução. Não precisa de mais retórica. Precisa de resultados. E, por vezes, a forma mais responsável de respeitar a democracia não é insistir nas mesmas soluções – é ter a coragem de construir novas.

CEO do Taguspark, Professor universitário


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