Jano e o problema das transições
Por boas razões, os romanos prestavam culto a Jano, o deus bifronte que presidia às arcadas e aos umbrais. No entanto, com um apurado sentido da duplicidade das coisas, Jano era também o deus que velava pelos bons começos. A mitologia antiga conhecia o paradoxo, que se aplica a todas as mudanças históricas, de que toda a transição é também um começo, e que todo o começo não é mais do que uma transição.
Por isso, o icónico e inesquecível poema de Sofia de Melo Breyner sobre o 25 de Abril fala apenas de um só dia, sem considerar outro antes ou depois: «Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo».
Olhando para trás e para a frente do 25 de Abril, tem-se recordado nestes últimos dias, que não foi só no regime anterior que existiram presos políticos, arbitrariedades e o horror da tortura. A discussão atual confirma, conforme o........
