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A beleza de roubar bandeiras

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04.03.2026

Havia há algumas décadas nos recreios das escolas o jogo de roubar a bandeira ou a barra do lenço. Cada equipa posicionava-se no seu campo e o jogo consistia em atravessar o terreno opositor, capturar a bandeira e conseguir regressar sem ser apanhado. A conquista da bandeira era motivo de grande celebração.

O mesmo se passa na política democrática.

Em democracia, os governantes sofrem com o dilema entre fazer alguma coisa útil para o seu país ou nada fazer para não correr o risco de desagradar a setores importantes do eleitorado e, juntamente com os votos, perder o poder. Nos corredores de Bruxelas, por exemplo, é comentada a queixa dos governantes, de que conhecem bem as reformas que têm de fazer, mas não sabem como ser reeleitos se as fizerem.

Na política democrática, o roubo das bandeiras é uma solução elegante para o dilema. Ao se apoderar das bandeiras dos opositores, o governante esvazia o discurso dos adversários, força o consenso mesmo contra a vontade dos opositores e reduz o confronto político a meras divergências sobre os pormenores de execução das políticas. Tudo o que um governante sonha.

Ainda há pouco tempo pudemos apreciar em Portugal um outro exemplo brilhante desse jogo com a adesão de António Costa, em 2016, à política de responsabilidade orçamental, controlo do défice e superávite nas contas do estado.

Nos anos de chumbo, uma imensidão compacta de políticos, jornalistas, comentadores e doutorados em economia próximos do PS, e muitos também no PSD, clamaram contra o monetarismo, cantaram as virtudes do défice, defenderam o não pagamento da dívida pública, advogaram a moratória, sustentaram a inevitabilidade da espiral recessiva e demonstraram definitivamente a impossibilidade económica, financeira e social de pagar a dívida. Nessa situação, Costa - um extraordinário talento desperdiçado para a área do marketing - soube até criar um belo slogan publicitário para praticar exatamente o contrário: as ‘contas certas’. A bandeira foi roubada com tal mestria que até hoje os governos do PSD ainda usam o slogan de Costa.

O roubo da bandeira de Passos Coelho - político de marketing menos ágil - resultou em pleno e o PS celebrou oito anos de governo. E mais teria aguentado sem a intervenção inesperada do Ministério Público.

E Luís Montenegro? À beira do pântano, quando já muito poucos acreditam em um governo reformista, com um socialista em Belém, está provavelmente a repetir a pergunta de Lenine, «o que fazer?» Só uma vitória no jogo das bandeiras pode ainda lançar Montenegro para algum lugar na política nacional que não seja deixar-se deslizar para o pântano guterrista.

Estando muito desbotadas as anteriores bandeiras socialistas, por terem estado demasiado tempo ao sol, e a total inadequação das bandeiras woke para captar eleitores, resta a Montenegro roubar as bandeiras do Chega e da IL. Por exemplo, fazer algumas ruturas no que toca ao controlo da imigração, a luta contra a corrupção, crescimento económico pela menor regulamentação, simplificação, liberalização e privatizações, além, claro está, da esquecida arte de governar um país, que inclui forças armadas bem apetrechadas e moralizadas.

Fazer o contrário do que se apregoa é cinismo, hipocrisia, falsidade? Assim será, mas é o modo eficaz de realizar consensos em democracia, como o provou António Costa. Com o roubo da bandeira do PSD, legou um notável consenso nacional sobre a necessidade da responsabilidade orçamental. Assim se fazem consensos, não como imagina Seguro, sentando governo e oposição à mesma mesa, e pedindo à oposição que renuncie à sua função. Como bem observou Kant, «sem a falsidade dos homens, a maldade própria da natureza humana rapidamente derrubaria estados inteiros».


© SOL