O Governo quer mesmo abandonar quase 2 milhões de portugueses?
Nas últimas semanas, tenho ouvido o relato de várias pessoas que atravessaram a região centro pela A1 ou pela A8, dizendo que a destruição provocada pela tempestade Kristin é absolutamente avassaladora. A minha resposta é sempre a mesma: se acham que o que se vê da autoestrada é impressionante, a minha sugestão é que saiam para Leiria, para Ourém ou para Pombal, percorram os centros das cidades, façam um desvio pelas aldeias à volta e, aí sim, podem ter uma noção real do nível de devastação.
Um mês depois da passagem da tempestade Kristin, há milhares de pessoas que só agora viram restabelecida a eletricidade, que ainda não conseguiram tapar todos os buracos nos telhados das suas casas, que ainda andam a apanhar os destroços que sobraram das suas empresas. Em Leiria, na Marinha Grande, em Ourém, em Pombal e em muitos outros concelhos, falta quase tudo: materiais de construção, mão de obra e, sobretudo, dinheiro para reconstruir o que a tempestade destruiu.
É preciso conhecer a realidade da vida daquelas pessoas – de milhares de pessoas que viram o seu carro destruído e a quem o Estado agora diz: «Acionem o seguro». Qual seguro? Se nunca tiveram salário para trocar de carro, quanto mais para ter um seguro que os proteja contra intempéries? Gente que construiu a sua casa há mais de 40 anos e a quem o Estado agora promete até 10 mil euros que mal dão para trocar um telhado de uma água, quanto mais de duas. Pequenos empresários que investiram tudo nos seus negócios e a quem agora falta o ânimo para começar tudo de novo. A esses, o Estado sugere que se endividem ainda mais.
É, de facto, preciso sair da bolha de Lisboa para compreender que a maior parte daqueles municípios não tem orçamento para levantar do chão anos e anos de investimentos em equipamentos desportivos, sociais e culturais. Jardins inteiros que foram arrasados, pavilhões, estádios, monumentos nacionais.
Os autarcas — que tantos elogios têm recebido na bolha mediática — apreciam, seguramente, as palmadinhas nas costas, mas não é com elas que vão reerguer os seus concelhos. É preciso dinheiro, e é preciso que ele apareça já. Não é daqui a dois anos, nem daqui a três. É já.
Nesta, como noutras tragédias, o Estado central seguiu o mesmo guião de sempre. Primeiro, foi apanhado a dormir. Preparou-se mal, demorou a acordar para o nível de destruição e, depois, de forma atabalhoada, lá foi começando a mostrar que existe. Descontadas as trapalhadas políticas que marcam sempre este tipo de eventos em Portugal, o Governo acertou o passo e começou a despejar medidas para ajudar a região centro. O dinheiro chegaria rápido e os processos seriam desburocratizados, prometia o primeiro-ministro. Nem tudo foi verdade, nem tudo foi mentira.
Mas, passada a tempestade, aos primeiros raios de sol, o Estado voltou a fazer aquilo em que é especialista: criou uma comissão e anunciou um plano de médio-longo prazo de recuperação e resiliência. O que é que isso significa, na prática? Reuniões. Muitas reuniões, documentos, discussão, à porta fechada e para as televisões, até que um dia, quem sabe, já nos tenhamos todos esquecido do que aconteceu e já estejamos a debater a próxima grande bronca nacional.
Que fique claro: não tenho nada contra o PTRR anunciado pelo Governo. Tenho dúvidas de que signifique grandes transformações, mas dou-lhe o benefício da dúvida. Mas enquanto o Governo está sentado em reuniões com os partidos e com o Presidente, milhares de pessoas continuam sem luz, sem casa, sem empresas, sem trabalho e sem carro. Milhares de pensionistas que mal ganham para comer viram a sua agricultura de subsistência destruída — e, para eles, não houve nenhum apoio. Milhares de pessoas tiveram de recorrer às poucas poupanças que tinham para ir comprar telhas, subiram aos telhados arriscando a vida, porque lhes estava a chover em casa. Enquanto, em Lisboa, os partidos se vão colocando em bicos dos pés para ver quem é que deu mais contributos para um plano que só daqui a dois ou três anos, se tudo correr bem, estará no terreno, há quem tenha de acordar de manhã e ir à procura de uma lona para tapar mais um buraco no telhado.
Sabemos hoje que, depois dos incêndios de 2017, foi prometida muita coisa. Apoios, planos de contingência, reformas políticas que evitassem que o Estado fosse novamente apanhado a dormir. Os apoios, muitos deles, nove anos depois, ainda estão por pagar. Os planos de contingência são agora questionados. E as reformas políticas, claramente, mudaram alguma coisa, mas não mudaram o essencial. Por isso, a minha pergunta é esta: o Estado quer mesmo deixar ao abandono quase 2 milhões de pessoas dos 68 concelhos afetados? Porque é isso que parece que se está a preparar para fazer.
