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Reconsiderar o amor na família

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Uma vez num exercício de grupo pedi para cada pessoa descrever por escrito o seu “safe place”, um lugar ou contexto onde se sinta segura e serena. Quando perguntei se alguém queria partilhar com o grupo, uma mulher disse: «Para mim foi mesmo fácil, é o sofá da sala dos meus pais». À volta houve olhares de alegria, comoção e tristeza. Entendi a tristeza como o reflexo de que não é assim para todos, nem sempre é tão fácil. A casa dos pais e a relação com os pais nem sempre são fontes de tranquilidade e segurança. Voltei a lembrar-me deste episódio agora que se tem falado tanto sobre homossexualidade, família e “terapias de conversão”. Tem circulado um vídeo em que Rodrigo Moita de Deus diz achar razoável que um pai peça a um filho para “reconsiderar” a sua homossexualidade. Ainda bem que ele o disse assim, com clareza, porque diz em voz alta e com todas as palavras a mensagem que muitas pessoas que são homossexuais recebem dos seus pais. E é sempre mais fácil confrontar um discurso direto do que insinuações que magoam e destroem.

Como todos os psicoterapeutas, acompanho pessoas que são LGBTIQ+ e conheço de perto o sofrimento causado pela não aceitação por parte dos pais. Há muitas maneiras de não aceitar, e todas têm dano. Pode ser um evitamento em ver a realidade (quanto mais falar dela), pode ser uma “pseudoaceitação” que vive de expressões como «por mim não é um problema mas não sei como o teu pai vai reagir…» ou apenas a crueldade da invalidação, dizendo achar que «é algo passageiro».

A maioria dos pais precisa de passar por um processo de aceitação da homossexualidade dos filhos. As expectativas mais comuns são esperar que um filho ou filha seja heterossexual e as pessoas vivem de fantasias e expectativas. Esse processo pode ser difícil e será mais difícil para alguns pais do que para outros. Mas o facto de ser difícil não pode legitimar que um pai ou mãe agrida emocionalmente um filho. O que está na base do sofrimento dos pais pode ser um medo, como ouvi várias vezes, de que os filhos sofram «porque ser homossexual vai tornar a vida mais difícil» ou «porque a sociedade não aceita». Se for este o caso, como mãe ou pai, nós só temos um papel: amar incondicionalmente, proteger e ajudar a desenvolver um amor próprio suficientemente forte para lidar com tudo o que aí pode vir. E nunca sermos os primeiros representantes da “sociedade que não aceita”.

Nem só de amor vivem as famílias. Podem ser várias e contraditórias as ligações entre os seus membros: poder, necessidade de controlo, dependência ou codependência, a vaidade de que os filhos brilhem para que os pais se sintam valorizados ou a lealdade às regras rígidas da família, onde a diferença não tem lugar e, por isso, é vista como traição e tem como preço a rejeição.

O amor aceita, acolhe e protege. Amor é quando se está na sala dos pais tranquilo e em paz com quem se é. As razões que podem levar um pai ou mãe a pedir a um filho para “reconsiderar a sua homossexualidade” serão outra coisa qualquer. Mas amor, não.


© SOL