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Cascais, Capital Europeia da Democracia

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18.03.2026

Em tempos de frenesim informativo, onde nada resiste na agenda mediática para além de uns meros dias, pouco se devem lembrar daquela senhora de idade avançada, residente em Ereira, Montemor-o-Velho, transportada num bote pneumático dos Fuzileiros para conseguir votar nas eleições presidenciais.

A imagem não me abandona. Segundo disse às televisões enquanto atravessava as águas, nunca deixou de exercer o seu direito de voto desde que tal lhe foi permitido e aquele dia não seria uma exceção. Esta manifestação espontânea de essência da democracia não deixa de constituir uma valente lição a quem, no conforto do seu lar, prefere abster-se, porque os políticos são todos iguais.

Esta senhora talvez não saiba que as autocracias passaram a ser a maioria no nosso mundo. Segundo o Relatório da Democracia 2025, do Instituto V-Dem, sediado na Universidade de Gotemburgo, na Suécia, existiam 88 democracias e 91 autocracias no final de 2024, numa análise mundial que revela uma inversão em relação ao ano anterior, confirmando o declínio progressivo dos espaços democráticos.

Aquela senhora não deve saber que três em cada quatro pessoas no nosso planeta, ou seja, 72% da população, cerca de 5,8 biliões de pessoas, o nível mais elevado desde 1978, vivem no autoritarismo.

Sabe, no entanto, como foi difícil conquistar o direito de voto, aquele do qual não prescinde, alheia à força das águas ou da Natureza, porque recorda-se bem das épocas em que as mulheres não podiam exercer o que damos hoje por adquirido. Sorri perante as adversidades, ignora os castigos das alterações climáticas e não desiste, jamais, de se deslocar às urnas, mesmo se os mais jovens classificam como resquícios históricos os direitos oriundos do 25 de Abril. São precisamente esses que ela decide honrar, sempre que a população é chamada a pronunciar-se. Aconteça o que acontecer.       

O Instituto V-Dem considera a desinformação e a polarização política como as principais ameaças às democracias. A primeira é utilizada pelos governos autocráticos para potencializar, propositadamente, sentimentos negativos na população e criar um sentimento de desconfiança, enquanto a polarização se empenha em reduzir a confiança nas instituições governamentais.

É neste contexto que, sucedendo a cidades como Viena e Barcelona, Cascais assumiu oficialmente o título de Capital Europeia da Democracia 2026. No processo de eleição, o júri internacional reconheceu o envolvimento ativo da comunidade e a inovação em projetos de participação cívica, onde se incluem os programas dos Tutores do Bairro, as Terras de Cascais, focado na sustentabilidade e agricultura urbana, ou o Orçamento Participativo, um dos mais antigos no nosso país.

Durante este desafio anual, serão realizadas múltiplas atividades nacionais e internacionais, incentivando os ambientes democráticos, promovendo a transparência e envolvendo os cidadãos em decisões críticas para o futuro, de modo a combater ferozmente a desinformação e a polarização política. A senhora de Ereira, tal como Portugal e o Mundo, agradecem este renascimento da esperança.

Escritor e Gestor Público


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