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Do lado certo da História…

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18.04.2026

A História, em determinados contextos, evidencia um preocupante afastamento do ideal de um futuro compartilhado. A prevalência da desordem e de decisões precipitadas demonstra tal tendência. Atualmente, observa-se que a política internacional prioriza as ações imediatas em detrimento dos equilíbrios; o poder é utilizado como um instrumento de visibilidade, as estratégias dão lugar à improvisação e os conceitos de liderança apresentam-se cada vez mais vinculados à presença mediática.

A influência de figuras como Donald Trump vai além dos mandatos e das fronteiras. O impacto mais duradouro não está apenas nas decisões que se tomam, mas também no ambiente que ajudam a criar. A desconfiança tornou-se comum. Hoje, desconfia-se das instituições, dos compromissos e da palavra dada. A dúvida, que antes era uma ferramenta crítica, transformou-se em prática do quotidiano. Quando a verdade se torna flexível e as alianças perdem força, o efeito vai além da política. Isso afeta a convivência entre os países, enfraquecendo as regras que, mesmo imperfeitas, garantiam alguma previsibilidade e estabilidade.

A História não se resume a desvios ou retrocessos. Ela avança graças àqueles que rejeitam o cinismo e não desistem. Há vozes que persistem, não por serem mais altas, mas pela sua coerência e firmeza. A menção ao Papa Leão XIV, ainda que apenas como símbolo, reforça a ideia de resistência moral. Num tempo em que a soberania é usada para justificar os excessos, lembrar que a dignidade humana é um limite e não apenas um discurso é um princípio inalienável. Na prática, resistir moralmente afigura-se essencial para enfrentar o conformismo de hoje.

Estar do lado certo da História é um desafio exigente exigindo escolhas, disciplina e, muitas vezes, isolamento. Escolher a liberdade, a justiça e a cooperação vai contra as tendências atuais, marcadas por interesses imediatos e por soluções fáceis que ignoram o futuro. Esse caminho não traz conforto, mas sim exigência, coerência e responsabilidade.

Portugal não está imune a esse tipo de tensões. A sua tradição de abertura e de participação internacional faz com que enfrente decisões concretas, que estão longe de ser simples ou consensuais. Distinguir entre o que é útil e o que é justo ainda é uma tarefa complexa, feita de pequenas escolhas. E essa diferença é importante. A tendência de seguir o mais forte ou de adaptar princípios por conveniência não é nova, mas hoje está mais visível e frequente, exigindo mais atenção e senso crítico.

A História regista a indiferença com rigor. Não exige heroísmo, mas espera consistência e clareza. Isso manifesta-se através de ações concretas: afirmar, recusar ou não se calar, mesmo quando seria mais fácil. Trata-se de escolhas discretas, às vezes invisíveis, que se acumulam na maior parte das vezes de pequenas decisões repetidas que formam o legado coletivo.

Quando quase tudo parece negociável, manter os princípios preserva a liberdade e o sentido. Isso não traz ganhos nem reconhecimento imediatos nem garante proteção. Mas permite que, no futuro, se possa ser julgado sem constrangimentos, com base na coerência entre o discurso e a ação.

Estar do lado certo da História não significa ter certezas absolutas ou prever julgamentos futuros, mas sim manter princípios essenciais. O verdadeiro teste, para as instituições e as pessoas, está em não abdicar dos princípios fundamentais ainda que sob pressão da conveniência. No fim, a decisão, de manter ou não tais princípios, é o que define a prática e o legado de cada época.


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