Portugal, o Chega e "Como as Democracias Morrem": Uma leitura comparada
Apesar de existir uma natural tentação para compararmos a ascensão do partido populista português de direita Chega (discordo com a sua classificação como "fascista") com a profunda decadência da democracia da América sob Trump e aqueles que o antecederam no Partido Republicano (sim: o desvio da democracia nos EUA não começou apenas com Trump) a comparação não é perfeita: O Chega não tomou o poder, não o partilha em coligação de governo nacional e as sondagens mais recentes sugerem que possa estar perto do seu teto máximo de crescimento.
A análise que aqui farei não será, portanto, um prognóstico de colapso democrático, mas um exercício de vigilância institucional e irei usar a grelha de Levitsky/Ziblatt para identificar tendências a monitorizar, distinguindo com o rigor e isenção que puder o que está documentado do que é hipótese por confirmar. Sempre que os factos encontrados contradizem uma premissa, irei assinalar esse desvio.
Eixo 1. Ascensão sem tomada de poder: um partido a testar o seu teto
O Chega transformou o bipartidarismo português num sistema tripartido acabando com o reinado do "bipartido" (PS e PSD) que governou Portugal desde a reinstauração da democracia em 1975. Este fenómeno tem efeitos radicais na estabilidade governativa, irá impedir - na prática - durante muitos anos a formação de governos estáveis que não sejam a materialização de coligações entre dois destes três partidos e se os dois partidos centristas do sistema (PS e PSD) cometerem o erro de criarem um "coligação de grande centrão" irão alimentar o crescimento do partido populista conforme a experiência semelhante noutros países. É certo que, ao contrário do que já sucedeu noutros países, o Chega ainda não venceu eleições legislativas nem obteve uma maioria de votos no Parlamento que lhe garantiu uma ascensão ao governo.
Pelo contrário, as sondagens mais recentes (2026) apontam para uma estagnação ou até para um ligeiro recuo face aos máximos anteriores embora pareça haver uma deslocação de votos do PSD para o Chega fruto do nítido desvio para as posições securitárias e anti-imigração do governo que numa vã tentativa de recuperação de eleitorado populista de facto (como já sucedeu com o pedronunismo no PS) acabam por credibilizar o partido populista e consolidar o seu eleitorado.
Este desvio para a direita (chamemos-lhe right shift) do PSD é relevante à luz do tema do livro Como as Democracias Morrem que serviu de referência comparativa para este texto: os autores notam que os populistas outsiders frequentemente alcançam o seu tecto máximo de crescimento quando a novidade se esgota, o discurso e as ideias se tornam repetitivos e cansativos e a falta de estrutura organizativa se torna visível. O problema crónico de falta de quadros com experiência de governação (autarquias mal geridas, deputados com histórico de declarações erráticas, rotatividade elevada, problemas sistemáticos com a Justiça, etc) é precisamente o tipo de fragilidade que, no livro, tende a limitar outsiders: Jesse Jackson, Pat Buchanan e Steve Forbes perderam não por falta de apoio popular pontual, mas por incapacidade de montar uma máquina capaz de "atravessar o curso de obstáculos" da governação continuada.
A diferença material com os casos extremos do livro (Mussolini, Hitler, Chávez) é que nenhum destes chegou a testar o seu teto eleitoral antes de capturar o poder por via de alianças de elite: o Chega, pelo contrário, está a ser testado pelo eleitorado de forma repetida e continua sem ultrapassar esse teto.
Eixo 2. Processos eleitorais: beneficiário, não crítico
Ao contrário de Trump (que alegou fraude eleitoral mesmo vencendo e negou a legitimidade de Clinton antes de perder as eleições) ou de Bolsonaro, o Chega não tem feito do ataque à integridade do processo eleitoral um eixo do seu discurso: e isto muito compreensivelmente, dado que o sistema proporcional de listas fechadas tem sido favorável ao seu crescimento, permitindo-lhe transformar descontentamento e abstencionistas crónicos em votos que se transformam em assentos parlamentares. Isto distingue-o do padrão descrito no livro em Orbán........
