Os "Filhos de Alguém" (Fi-d-algos) ou "Como o nepotismo transformou a política portuguesa numa herança de família"
Portugal celebra cinco décadas de democracia com uma contradição que raramente olhamos de frente: 36,5% dos nossos ministros chegaram ao poder não exclusivamente pelo mérito, mas através de redes familiares, ligações hereditárias, maçónicas ou de outra natureza. Pela minha leitura, estamos perante uma República onde ser "filho de alguém" continua a ser o melhor passaporte para subir a um cargo de poder: político (central ou autárquico) e onde muitos dos que lá chegaram devem, e deverão sempre, mais aos méritos dos seus ancestrais (nem sempre os directos) do que aos seus próprios méritos e qualidades pessoais.
Uma aristocracia sem título
"Nepote" vem do latim nepos/nepotis (sobrinho, neto) e designava originalmente os parentes dos papas favorecidos com cargos eclesiásticos. Na política portuguesa contemporânea, o fenómeno é omnipresente mas apenas raramente nomeado como tal na bolha mediática ou política (sendo que, frequentemente, ambas se misturam e estão fortemente impregnadas de nepotismo). Usemos alguns nomes concretos: António Costa, filho de um escritor e intelectual influente; Mariana Vieira da Silva, filha de histórico e muito influente dirigente socialista; os Morais Leitão, com João ministro e o filho Miguel também elevado a ministro numa sucessão que faria corar qualquer monarquia; os irmãos Beleza, Miguel e Leonor, ambos ministros, ambos herdeiros da mesma rede familiar.
Esta nova "aristocracia republicana" (um par de palavras que devia ser impossível conjugar na mesma frase) não se apoia em títulos nobiliárquicos formais, mas num capital político e social herdado que funciona, na prática, como uma nobreza de sangue moderna. Os nepotes portugueses não conquistam o poder: nascem com ele, crescem com ele, herdam-no como um "bem de família" inalienável e incontestável ocupando todas as nesgas de poder e influência que um país pequeno e com uma diminuta elite política e económica apresenta. A família Soares fundou uma linhagem que se perpetua e perpetuará eternamente por influência direta e rede lateral submersa. Diogo Freitas do Amaral fez de um apelido antigo uma ponte direta até ao poder contemporâneo. O recentemente falecido Francisco Pinto Balsemão é talvez o arquétipo de "nepote" mais completo: nascido em família nobre, construiu um império mediático que lhe serviu........
