O Ensino Superior no “Espelho Partido”
À entrada do Ensino Superior existe, pelo menos metaforicamente, um espelho antigo. Durante décadas, refletiu professores, estudantes e investigadores — nem sempre alinhados, mas ainda reconhecíveis como parte de um mesmo ecossistema. Com o tempo, esse espelho foi acumulando fissuras: a crescente centralidade de rankings e métricas, a massificação do ensino sem investimento proporcional, a precariedade nas fases iniciais das carreiras académicas e uma aproximação progressiva a lógicas de mercado.
A emergência recente da Inteligência Artificial (IA) não criou estas tensões, mas tornou-as mais visíveis e, em alguns casos, mais intensas. Ao introduzir novas formas de ensinar, aprender e produzir conhecimento, a IA reconfigura práticas estabelecidas e expõe fragilidades que já existiam. Pode reforçar a lógica da produtividade científica, enquanto levanta novas questões sobre avaliação, integridade e diferenciação. No ensino, tanto permite escalar como obriga a repensar o papel do docente.
Neste contexto, o que antes eram tensões latentes tornam-se difíceis de ignorar. Cada ator tende a olhar para o sistema a partir do seu ponto de vista e a ver apenas o fragmento do espelho que lhe pertence.
Uma ressalva necessária: este texto não procura culpados. Propõe algo mais exigente: que todos olhem, em simultâneo, para o espelho partido.
A primeira fratura: o ensino
O docente contemporâneo recorre cada vez mais à IA para planear aulas, gerar apresentações, criar exercícios e apoiar a avaliação. E não há nada de errado nisso quando feito com critério e espírito crítico. A tecnologia tornou-se uma aliada real numa carga de trabalho que raramente é reconhecida.
A tensão surge noutro ponto: o mesmo docente que integra estas ferramentas com naturalidade tende a desconfiar quando o estudante faz o mesmo. Este aparente duplo padrão não é tanto uma incoerência, mas antes o reflexo de um sistema que não preparou os seus atores para este momento, nem lhes deu orientações claras para lidar com ele.
Os dados ajudam a perceber o desconforto. Em 2025, oito em cada dez estudantes em Portugal usam IA. No Reino Unido, 88% admitem recorrer a IA generativa em avaliações, face a 53% no ano anterior. A........
