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A Europa descobriu que precisa de agricultores

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18.08.2026

Uma das discussões mais interessantes que estão atualmente a decorrer a nível europeu passa relativamente despercebida ao grande público.

Em julho, a Comissão Europeia adotou a “Estratégia Europeia para a Pecuária” e o “Plano de Ação para as Proteínas”, que podem parecer apenas documentos técnicos destinados a especialistas, mas na realidade ajudam a perceber como Bruxelas “imagina” a agricultura das próximas décadas.

Durante muito tempo, o debate europeu sobre a agricultura foi dominado pelas preocupações ambientais e climáticas. Essas preocupações mantêm-se, naturalmente, mas os acontecimentos dos últimos anos vieram acrescentar novas prioridades. A pandemia, a guerra na Ucrânia, a instabilidade dos mercados internacionais e as crescentes tensões geopolíticas demonstraram que a segurança alimentar voltou a ser um tema estratégico.

A capacidade de produzir alimentos no espaço europeu deixou de ser apenas uma questão económica para passar também a ser uma questão de autonomia, resiliência e segurança. Esta preocupação, que os europeus pareciam ter deixado de ter, passou a voltar a ter centralidade.

É neste contexto que surge a nova Estratégia para a Pecuária. A Comissão Europeia parte de uma constatação simples. O setor representa cerca de 40% do valor acrescentado da agricultura europeia, gera aproximadamente 400 mil milhões de euros de volume de negócios por ano, envolve quatro milhões de explorações agrícolas e assegura emprego a sete milhões de pessoas. Apesar desta importância económica e social, a Europa perdeu desde 2005 cerca de 10% dos seus bovinos, 15% dos suínos e 25% dos ovinos e caprinos. Em vez de assumir como inevitável um declínio contínuo da atividade pecuária, Bruxelas procura agora construir uma visão que combine competitividade, sustentabilidade e coesão territorial.

A mudança de abordagem é particularmente interessante porque reconhece explicitamente algo que muitas vezes tem sido ignorado nos debates públicos. Nem toda a pecuária é igual.

Os estudos que acompanham a estratégia mostram que os sistemas mais extensivos apresentam características muito distintas dos sistemas intensivos. Têm menor dependência de fatores de produção externos, utilizam mais recursos locais, asseguram níveis mais elevados de autonomia alimentar e desempenham um papel essencial na gestão da paisagem. Em muitas regiões da Europa, o desaparecimento da pecuária significaria (ou acentuaria ainda mais o processo em curso) o abandono das terras, a degradação dos territórios rurais e o aumento dos riscos de incêndio. Cerca de um terço dos habitats........

© Sapo