A indignação de Abrunhosa é um produto do nosso tempo
O insólito e recente embate entre o ministro José Manuel Fernandes e a presidente da Câmara Ana Abrunhosa transcende a mera anedota paroquial ou a falha de protocolo institucional.
Na verdade, a democracia atual vive um paradoxo muito claro, em que a expansão dos canais digitais coincide com uma quebra profunda na confiança institucional. O triste espetáculo a que o país assistiu perante as câmaras de televisão não é um mero acidente, mas sim o sintoma idiossincrático de uma patologia estrutural e profunda que podemos diagnosticar como uma verdadeira “Esquizofrenia Representativa".
Assistimos hoje à degradação acelerada do espaço público, onde a substância da governação foi totalmente canibalizada pela estética efémera das redes sociais. Na prática, o eleito vê-se forçado a atuar sob dois regimes de legitimação que são, na sua essência, incompatíveis. Este é o drama central da vida política contemporânea, que se desdobra em duas dimensões opostas.
Por um lado, o espaço parlamentar e institucional exige aos seus actores a representação substantiva e a racionalidade técnica. Uma visita oficial a locais afetados pelas tempestades deveria enquadrar-se exatamente neste domínio rigoroso, focado na resolução de problemas concretos e não no palco mediático. Em contrapartida, o novo ecossistema digital impõe a representação simbólica e o apelo puramente emocional. A interrupção protagonizada pela autarca, intencionalmente envolta numa capa de indignação sobre quem "aparece primeiro na televisão", obedece inteiramente a esta segunda lógica.
Quando analisamos a comunicação política atual, os dados são extraordinariamente esclarecedores. Constata-se que apenas um sexto do conteúdo online dos actores políticos se foca no seu trabalho substantivo e legislativo, sendo que esse mesmo conteúdo é rapidamente preterido pela superficialidade do politainment.
A presença de jornalistas e telemóveis naquele local fustigado pela intempérie já não servia para reportar a realidade factual do sofrimento local, mas sim para a encenar. A economia da atenção na era moderna não é, de todo, neutra. Pelo contrário, ela dita as regras do jogo e transforma a indignação num valioso ativo de consumo eleitoral.
Para muitos governantes o resultado da política pública no terreno é subjugado à voraz a máquina algorítmica para recolher a validação efémera das massas.
Este novo mecanismo mediático funciona, inexoravelmente, como um duplo vínculo que asfixia a complexidade democrática para conseguir alimentar as métricas de vaidade do algoritmo: o político cria uma esfera artificial de legitimação por detrás da dopamina dos gostos, partilhas e comentários.
A reação de Ana Abrunhosa não deve, portanto, ser interpretada como um mero excesso de zelo individual. Ela é o subproduto político de um tempo em que os representantes cederam voluntariamente à ditadura do entretenimento e do ruído contínuo.
A questão de saber quem detinha a razão factual neste triste episódio é rigorosamente irrelevante para o desenvolvimento do país. O que verdadeiramente nos deve preocupar é constatar como a esfera pública se converteu num imenso estúdio de produção de conteúdos, onde a ponderação é castigada e o conflito premiado.
Se a nossa classe política continuar refém desta perigosa esquizofrenia, os problemas reais dos cidadãos continuarão a ser apenas o pretexto vazio de um espetáculo aparentemente interminável. Até um dia terminar.
Professor e investigador em Estratégia de Comunicação Política na ESCS-IPL
