Mulheres. Elas não sabem o que querem. Nós sabemos por elas
Há uma ideia que regressa sempre que se fala de mulheres e política e que costuma ser apresentada quase como um elogio: a de que as mulheres seriam, por natureza, mais conservadoras, mesmo aquelas que não se identificam como tal.
É uma frase suave, quase carinhosa. E é, no seu núcleo, a mesma ideia que durante séculos serviu para nos manter caladas.
A minha primeira reação, durante muito tempo, foi a incompreensão. Como pode uma mulher, que herdou direitos que outras conquistaram com um custo pessoal enorme, colocar-se do lado de quem os quer estreitar? Mas a incompreensão é um mau lugar para se escrever. Escrever a partir do espanto é fácil. Perceber é mais difícil e, sobretudo, mais útil.
Convém começar por não fingir que isto é um fenómeno recente ou importado. Em 1908 foi fundada em Inglaterra a Women's National Anti-Suffrage League, que teve mulheres entre as suas principais dirigentes e ativistas, contra o direito de voto das próprias mulheres. Em 1911 nasceu nos Estados Unidos a National Association Opposed to Woman Suffrage, presidida por Josephine Dodge e apoiada por mulheres que se mobilizaram ativamente contra o sufrágio feminino.
Em Portugal, o Estado Novo não precisou de importar nada. Criou a Obra das Mães pela Educação Nacional, em 1936, e a Mocidade Portuguesa Feminina, regulamentada em 1937 e dirigida por Maria Guardiola. Eram organizações destinadas a formar mulheres e raparigas segundo um ideal feminino assente na família, na maternidade, na domesticidade e no cumprimento de papéis sociais diferenciados.
A Constituição de 1933 consagrava a igualdade dos cidadãos perante a lei, mas acrescentava uma ressalva reveladora: "salvas, quanto à mulher, as diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família".
A palavra decisiva era essa. Natureza.
Não foram apenas homens a construir e sustentar o regime que limitou profundamente a autonomia jurídica, profissional e cívica das portuguesas. Houve também mulheres a participar nessas estruturas, com convicção, competência e estatuto. Ignorar isto seria conforto barato.
A sociologia oferece respostas mais úteis do que a indignação. Pierre Bourdieu ajuda-nos a compreendê-lo através do conceito de violência simbólica: uma forma de dominação que também se reproduz quando as categorias e........
