A feira das recordações
Vou a andar e vejo estas bonecas no meio do chão. Estão assim, meio recostadas em degraus, cada uma de sua maneira,
Explico já como elas me apareceram: estou a passear numa praça que acolhe uma feira de velharias, todos os meses, no segundo domingo de cada mês. Passo por lá de vez em quando, passeando-me entre as bancadas dos feirantes, mesmo sabendo que o mais certo é não ter grandes surpresas no que posso encontrar. É um universo onde rádios antigos, que o mais certo é não funcionarem, coexistem com louças desemparelhadas, peças de mobílias sem época determinada ou relógios que têm o tempo parado. É um mundo de objetos que já tiveram uma vida e que, de repente, foram rejeitados, esquecidos, deixaram de fazer sentido para quem os teve.
Dizem que são feiras de velharias, mas para mim são feiras de recordações, restos de momentos de vidas que ficaram para trás. Nas bancas dos vendedores estão testemunhos de vidas que nunca se cruzaram e que agora estão lado a lado à procura de alguém que lhes queira pegar. Vêm de casas diferentes, ninguém sabe de onde e ainda menos como ali chegaram. O mais certo é serem o resultado de casas que se esvaziam porque a lei da vida lhes ditou um fim e quem ficou desfez-se delas.
Olho à volta e penso naquilo que guardamos e nas coisas de que nos desfazemos e que depois acabam assim, longe da vida que tiveram. Vejam bem estas bonecas, de pano, de cores ainda vivas. Seriam da mesma criança? Quem brincava com elas? Que histórias e fantasias protagonizaram? Que segredos guardam?
Fico a pensar nisto tudo enquanto vou deixando a feira — mas olho para trás para as espreitar uma última vez e parece que o boneco do barrete verde ficou a sorrir.
Estratégias de comunicação// Manuel Falcão escreve sempre à sexta-feira, no SAPO
Os Pensamentos Ociosos são uma espécie de diário, com periodicidade semanal, em que Manuel Falcão deixa reflexões e desabafo, sempre à sexta-feira, no SAPO.
