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Cheias, derrocadas e um território em ruptura: uma leitura à luz de Ribeiro Telles

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17.02.2026

As cheias que estão a marcar o país são rios a regressar aos lugares que lhes pertencem, lembrando-nos que a paisagem tem memória e que a água nunca esquece os seus caminhos. No entanto, à luz do pensamento do Arq. Gonçalo Ribeiro Telles, estas ocorrências dificilmente seriam vistas como fatalidades inevitáveis. Seriam antes a manifestação de um território que perdeu a sua estrutura ecológica e a capacidade de absorver a água.

As cheias que marcaram Portugal em Fevereiro de 2026 — com o Mondego em situação crítica, diques sob forte pressão, inundações no Sado e evacuações preventivas em várias regiões — foram descritas como resultado de um conjunto excepcional de tempestades. Entre o final de Janeiro e Fevereiro, sucessivas depressões atmosféricas provocaram inundações generalizadas e desalojamentos em diferentes pontos do país. Na região de Coimbra, o aumento do caudal do Mondego e a vulnerabilidade dos sistemas de protecção evidenciaram os riscos associados à ocupação de planícies aluviais e à dependência de infraestruturas que oferecem segurança apenas temporária.

Perante estes acontecimentos, Ribeiro Telles provavelmente lembraria que os rios não invadem — regressam. As planícies aluviais do Mondego, historicamente zonas de expansão natural das cheias, foram progressivamente artificializadas e protegidas por diques que criam uma ilusão de segurança. Quando essas estruturas falham ou são ultrapassadas, a água retoma o seu espaço com uma força amplificada pela própria tentativa de a conter.

No sul, a bacia do Sado — especialmente em Alcácer do Sal — voltou a sofrer inundações, confirmando a vulnerabilidade de territórios ocupados em zonas naturalmente inundáveis. A progressão das tempestades por diferentes bacias hidrográficas revela como a pressão hidrológica se desloca ao longo do território, acumulando efeitos num sistema já fragilizado pela ocupação de leitos de cheia e pela artificialização das margens.

Um dos episódios mais reveladores ocorreu na região de Leiria, atingida pela depressão Kristin. As chuvas intensas provocaram inundações rápidas e danos em infraestruturas locais, expondo fragilidades acumuladas na organização do território. Áreas afectadas por incêndios florestais nos últimos anos, incluindo zonas do Pinhal de Leiria e envolventes, apresentam maior vulnerabilidade à erosão e ao escoamento superficial. A destruição do coberto vegetal, a alteração das propriedades do solo e a redução da infiltração aumentam a probabilidade de cheias repentinas em contextos de precipitação intensa.

Nestes cenários, a mobilização de sedimentos pode contribuir para o assoreamento de linhas de água e para a obstrução de sistemas de drenagem, favorecendo inundações localizadas. Mais do que um fenómeno isolado, estes processos reflectem a perda de resiliência ecológica da paisagem, agravada por incêndios recorrentes, gestão florestal inadequada e ausência de recuperação efectiva dos solos.

A depressão Kristin expôs igualmente a fragilidade de algumas habitações implantadas em zonas de risco. Em áreas periurbanas e rurais, a expansão do edificado em leitos de cheia, encostas instáveis e proximidade de arribas revela a persistência de práticas de ocupação pouco compatíveis com a dinâmica natural do território. Construções em locais impróprios — muitas vezes sem adequada avaliação geotécnica ou hidrológica — aumentam a exposição das populações a cheias rápidas, derrocadas e movimentos de vertente.

Quando as perdas humanas ocorrem não apenas pela força da água, mas durante reparações improvisadas, colapsos de estruturas e fragilidades expostas pelo temporal, torna-se evidente que o problema não reside apenas no clima, mas num território que perdeu a capacidade de proteger as suas populações.

Particularmente preocupante é a ocupação de arribas e zonas costeiras instáveis, onde a combinação de saturação dos solos e erosão pode desencadear colapsos súbitos. Nestes contextos, a chuva intensa actua como detonador de fragilidades pré-existentes: solos desprotegidos, cortes mal-executados, ausência de drenagem adequada e pressão urbanística sobre áreas ecologicamente sensíveis.

Ao mesmo tempo, os alertas das autoridades para o risco de deslizamentos de terras em várias regiões do país evidenciam a instabilidade de encostas urbanizadas e desprovidas de cobertura vegetal adequada. Estes episódios mostram que a tragédia não resulta apenas da intensidade da chuva, mas da fragilidade dos solos e das intervenções humanas que reduziram a sua capacidade de absorção.

Ribeiro Telles veria nestes deslizamentos não apenas o efeito da chuva intensa, mas o resultado de décadas de degradação dos solos: impermeabilização urbana, monoculturas florestais, cortes em taludes e destruição da vegetação que estabiliza as encostas. Solos vivos absorvem água; solos degradados cedem.

Também outras bacias hidrográficas permaneceram sob risco de cheia, com alertas sucessivos e planos de emergência activados. Esta recorrência revela um padrão: os sistemas hídricos portugueses estão sob crescente pressão, não apenas por excesso de precipitação, mas pela perda de resiliência territorial.

À luz do pensamento de Ribeiro Telles, a resposta não estaria em reforçar indefinidamente diques ou elevar muros. Ele lembraria que cada infraestrutura rígida desloca o problema no espaço e no tempo. Confinar rios aumenta a velocidade das águas; impermeabilizar cidades acelera o escoamento; destruir zonas húmidas elimina os amortecedores naturais das cheias.

Diria que Portugal tem vindo a substituir infra-estruturas ecológicas — solos permeáveis, galerias ripícolas, zonas de inundação natural — por infra-estruturas de betão que falham quando confrontadas com eventos extremos. E que, perante as alterações climáticas, esses eventos deixarão de ser excepcionais para se tornarem recorrentes.

As tragédias de Fevereiro de 2026 mostram que a segurança não depende apenas da meteorologia, mas do modo como habitamos o território. Quando se constroem cidades em leitos de cheia, quando se canalizam ribeiras, quando se ocupam planícies aluviais, arribas instáveis ou encostas desprotegidas, cada tempestade transforma-se numa crise.

Ribeiro Telles insistiria que a solução começa a montante: devolver espaço aos rios, recuperar zonas húmidas, renaturalizar margens, travar a impermeabilização e promover pequenas retenções de água distribuídas pela paisagem. Não para eliminar as cheias — que são parte do funcionamento natural dos rios — mas para impedir que se transformem em desastres humanos.

As cheias no Mondego, as inundações no Sado, os impactos da depressão Kristin em Leiria, as evacuações preventivas em várias regiões e os alertas em múltiplas bacias hidrográficas não são episódios isolados. São sinais de um território que perdeu a capacidade de dialogar com a água.

Se Ribeiro Telles visse o Portugal de hoje, talvez dissesse que não estamos perante uma crise da natureza, mas perante uma crise do ordenamento do território. E lembraria que a verdadeira protecção civil começa muito antes da tempestade — começa na forma como desenhamos a paisagem.

Este texto constitui uma reflexão inspirada no pensamento do Arq. Gonçalo Ribeiro Telles sobre ordenamento ecológico do território.

Licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais e ex-vice-presidente da Direcção Nacional da Causa Real//O autor escreve com o antigo acordo ortográfico


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