Ruço não é nome: Anatomia de uma injustiça
Sabem os meus amigos que Dom Quixote de la Mancha é, muito provavelmente, o meu livro – o tal que levaria para a ilha, o que gostaria de ter escrito, o que me permitiria morrer no instante seguinte, de olhos a rir, assobiando o Gabriel’s Oboe, como quem fecha o mundo.
E, no entanto, há nele uma discreta inquietação, uma dessas arestas que só o tempo revela. Tropecei nela há pouco.
O fidalgo, a roçar os cinquenta – “de compleição rija, seco de carnes, enxuto de rosto” – pode ter hesitado ao batizar o cavalo; e pouco importa que o animal, embora branco, fosse fraco, desengonçado, quase uma caricatura de si mesmo: tinha nome. Chamava-se Rocinante.
E a montada de Sancho Pança? Como se chamava a montada do seu escudeiro, esse homem atarracado,........
