Portugal paga salários baixos numa Europa que paga cada vez mais
Há mapas que servem para orientar e há outros que funcionam como um espelho pouco simpático. O que foi recentemente divulgado pelo Pplware (ler aqui), a partir de uma visualização da Visual Capitalist com dados do Eurostat e da OCDE, pertence claramente à segunda categoria. Não porque traga uma revelação inesperada, mas porque confirma, com números e cores, aquilo que muitos sentem no quotidiano: Portugal está a afastar-se do centro económico europeu e a aproximar-se perigosamente da sua periferia salarial.
O exercício é simples. Olha-se para o mapa e percebe-se rapidamente onde se concentram os salários mais elevados: norte e centro da Europa, economias maduras, estados sociais robustos, negociação coletiva forte. Depois desce-se no mapa e, quando se chega a Portugal, a sensação é desconfortável. Estamos mais próximos dos países de Leste do que daqueles com quem partilhamos moeda, mercado único e promessas repetidas de convergência.
Em 2024, o salário médio anual ajustado a tempo completo em Portugal ficou nos 24.800 euros. Um número que, isolado, pode parecer aceitável. Mas basta colocá-lo em contexto para que a ilusão desapareça: mais de 15 mil euros abaixo da média da União Europeia e muito distante das grandes economias do continente. Mesmo a comparação com os países que nos são mais próximos cultural e economicamente joga contra nós.
Espanha, o nosso vizinho direto, regista um salário médio anual na ordem dos 33.700 euros. A diferença não é marginal: são quase nove mil euros por ano. Itália, tantas vezes usada como exemplo de estagnação ou fragilidade estrutural, apresenta valores semelhantes, acima dos 33.500 euros. Não estamos a falar de economias milagrosas, mas de países com problemas conhecidos, que ainda assim conseguem remunerar melhor o trabalho.
Quando se alarga a comparação a economias consideradas estruturalmente próximas da portuguesa, o cenário continua pouco animador. Portugal surge sistematicamente abaixo, batendo apenas a Grécia no contexto do sul europeu e aproximando-se perigosamente de países que entraram mais tarde na União Europeia. A diferença é que muitos desses países seguem uma trajetória ascendente clara, enquanto Portugal parece preso numa espécie de limbo salarial.
Durante anos consolou-nos a ideia de que “não somos dos piores”. É verdade. Mas também já não somos dos que se aproximam. O mais inquietante deste mapa não é uma queda abrupta, mas um deslizamento lento, quase impercetível, que se torna evidente apenas quando se olha para trás. E quem sente isso primeiro são os mais novos, que fazem contas e percebem que o futuro, cá dentro, raramente compensa.
A União Europeia prometeu convergência económica e social. Prometeu que trabalhar no mesmo espaço significaria, com o tempo, uma aproximação real das condições de vida. A realidade é outra. O salário continua a ser o verdadeiro passaporte europeu e, para um trabalhador português, esse passaporte vale pouco. Demasiado pouco para quem paga rendas, energia e bens essenciais a preços cada vez mais próximos dos países onde se ganha muito mais.
Sempre que se fala de salários baixos, surge o argumento de que o país não aguenta. Curiosamente, esse limite raramente aparece quando se fala de lucros. Convém recordar que o Estado português interveio, em momentos críticos, para resgatar bancos em nome da estabilidade do sistema financeiro. Hoje, esses mesmos bancos apresentam lucros históricos, resultados celebrados publicamente e dividendos generosos.
Ainda assim, quando o país enfrentou recentemente situações de calamidade, como a tempestade que atingiu o centro do território, não houve um gesto estrutural de solidariedade por parte da banca. Não se viram reduções extraordinárias de juros nem medidas automáticas de alívio para famílias ou pequenas empresas afetadas. Dentro das regras do mercado, fez-se o que o mercado permite: aproveitar a conjuntura. É legítimo do ponto de vista empresarial, mas politicamente revelador. Num país onde os prejuízos são muitas vezes socializados, é legítimo perguntar se os ganhos extraordinários não deveriam implicar responsabilidades extraordinárias.
É neste contexto que surgem propostas de alteração à legislação laboral por parte do Governo PSD. Segundo vários especialistas, estas mudanças tenderão a fragilizar ainda mais a posição dos trabalhadores, enfraquecendo a negociação coletiva e reforçando uma flexibilidade que, em Portugal, costuma traduzir-se em precariedade. A história europeia mostra que nenhum país chegou ao topo da tabela salarial reduzindo sistematicamente direitos laborais.
As consequências desta lógica são particularmente visíveis nos serviços públicos essenciais. Falo também a partir da experiência direta enquanto enfermeiro. Os baixos salários, as carreiras bloqueadas e o desgaste permanente tornaram a profissão pouco atrativa num país que dela precisa desesperadamente. O resultado é conhecido: profissionais qualificados saem para Espanha, França, Reino Unido ou países nórdicos, onde fazem exatamente o mesmo trabalho com melhor remuneração, mais reconhecimento e maior previsibilidade de vida. Não é falta de vocação. É uma decisão racional.
Portugal parece resignado a um fatalismo educado. Aceita-se que é assim, que não há alternativa, que é o possível. Mas um país que normaliza salários baixos acaba por normalizar expectativas baixas. E um país que se habitua a perder gente qualificada habitua-se, pouco a pouco, a perder futuro.
Talvez o maior choque deste mapa não seja a distância para o Luxemburgo, quase obscena por definição, mas a aproximação a países que, ironicamente, estão a fazer o caminho que nós interrompemos. A pergunta já não é se estamos melhor do que ontem. É se ainda queremos estar melhor amanhã.
Porque um país pode aguentar muita coisa. O que não aguenta é viver permanentemente abaixo das suas possibilidades e chamar a isso realismo.
