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Startups de Defesa: muito entusiasmo, pouca estratégia

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16.03.2026

Para compreender verdadeiramente o momento que hoje atravessa o sector da Defesa, marcado por um verdadeiro boom de eventos, hackathons, seminários, startups, tecnologias emergentes e novos instrumentos de financiamento europeus e nacionais, é necessário ir além do entusiasmo do presente. Só olhando para três momentos-chave da última década se percebe a profundidade da transformação em curso: o período anterior a 2014, a ruptura provocada por 2022 e o novo contexto estratégico em que hoje nos movemos.

Durante mais de duas décadas após o fim da Guerra Fria, grande parte das democracias ocidentais viveu sob o “dividendo da paz”. A queda da União Soviética alimentou a percepção de que os conflitos tinham sido ultrapassados e que a segurança europeia estava estruturalmente garantida. Nesse contexto, muitos países europeus reduziram os seus orçamentos de Defesa, diminuíram efetivos e adiaram investimentos estruturais em capacidades militares pesadas. A prioridade deslocou-se para outras áreas da governação, enquanto a indústria de Defesa se mantinha concentrada em programas de longo prazo, com ciclos de desenvolvimento extensos e fortemente centralizados. A pouca inovação tecnológica no sector militar permaneceu largamente dependente dos gigantes tradicionais. O sector passou a ser percepcionado por grande parte do ecossistema tecnológico como burocrático, lento e pouco permeável à inovação externa, afastando naturalmente muitos empreendedores e investidores.

Quando a Rússia anexou a Crimeia em 2014 e iniciou o conflito no Donbass, esse foi o primeiro sinal claro de que o ambiente de segurança europeu estava a mudar. Foi um alerta estratégico importante. Contudo, apesar da preocupação política e diplomática que gerou, a realidade é que o ecossistema de Defesa europeu pouco se alterou. Houve alguma revisão de prioridades, um aumento moderado da atenção estratégica, mas no essencial o sistema manteve-se inalterado, como se este sinal fosse apenas uma excepção e não o prenúncio de uma transformação mais profunda no equilíbrio de segurança europeu. A invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em Fevereiro de 2022, marcou uma mudança mais profunda. Pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, a Europa voltou a assistir a uma guerra convencional de grande escala, envolvendo centenas de milhares de soldados, grandes volumes de........

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