Soberania não é uma linha de produção
Duas manchetes deste mês captam, melhor do que qualquer livro branco, a contradição que atravessa hoje a política de defesa europeia. Em Ancara, o Secretário-Geral da NATO, Mark Rutte, anunciou mais de cinquenta mil milhões de dólares (43 mil milhões de euros) em novos acordos de defesa transatlânticos, apresentando-os como prova de uma aliança “a trabalhar de mãos dadas” dos dois lados do Atlântico. Em Bruxelas, a Comissão Europeia continua a pressionar os Estados-membros no sentido de regras de aquisição “Comprar Europeu”, ao abrigo dos programas europeus para a Defesa. As duas coisas não podem ser o princípio organizador em simultâneo, e fingir o contrário não é estratégia — é agenda.
O próprio Rutte não deixa margem para dúvidas quanto à sua leitura: transformar o “Comprar Europeu” numa regra rígida seria, para a NATO, um erro estratégico. A prioridade da Aliança deve continuar a ser a rapidez na aquisição de capacidades e a preservação da interoperabilidade transatlântica, não a origem geográfica do fabricante.
O instinto de enquadrar isto como uma escolha binária, Europa ou América, é, em si mesmo, o problema. A Ucrânia não nos ensinou que as plataformas precisam de passaporte. Ensinou-nos que a capacidade industrial, a velocidade de produção e a resiliência das cadeias de abastecimento são, elas próprias, capacidades estratégicas, tão determinantes quanto os sistemas que produzem. Quando a procura de projéteis de artilharia, intercetores de defesa aérea e munições de precisão ultrapassou a produção quase da noite para o dia, a limitação raramente esteve no design da arma. Esteve na profundidade da base industrial por trás dela: ferramentas, redes de subcontratação, química de propelentes, mão de obra, e a vontade política de financiar tudo isto anos antes de a crise que o justificaria sequer começar.
É por isso que o debate não pode ficar-se pelas plataformas. Cada capacidade vive hoje dentro de um ecossistema: comunicações, software, guerra eletrónica, sistemas autónomos, manutenção, peças sobresselentes, infraestrutura de dados, logística. A aquisição é a transação visível; a integração, a sustentação e a modernização no ciclo de vida são a obrigação de décadas que se segue. Uma assinatura de contrato fica bem na fotografia. Uma cadeia de manutenção que ainda funciona, cinco anos e um embargo de exportação depois, é o que efetivamente dissuade. A guerra deixou de ser uma competição entre plataformas; passou a ser uma competição entre ecossistemas industriais, e é precisamente aqui que o debate “Comprar Europeu” perde parte da sua relevância: o problema europeu não reside apenas na origem do fornecedor, reside na velocidade. Continuamos a medir o sucesso pelo valor dos contratos assinados quando deveríamos medi-lo pelo tempo necessário para entregar sistemas operacionais, formar equipas, garantir manutenção, repor stocks e adaptar rapidamente os equipamentos às lições do campo de batalha. A questão fundamental não é se um míssil é americano ou europeu.........
