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Quatro anos de guerra na Ucrânia: resistência, sofrimento e convulsão global

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23.02.2026

A 24 de Fevereiro de 2022, a Europa assistia incrédula ao anúncio da “operação militar especial” de Vladimir Putin, um eufemismo que rapidamente se revelou aquilo que era: uma invasão em larga escala da Ucrânia. Em rigor, a guerra não começara naquele dia. Tinha tido um prelúdio inequívoco em 2014, com a anexação da Crimeia e o conflito no Donbass. Ainda assim, nada preparara verdadeiramente os líderes europeus, nem as sociedades, para o choque daquele amanhecer de Inverno, quando a Rússia lançou uma ofensiva militar de grande dimensão contra um Estado soberano no coração da Europa.

Quatro anos depois, o conflito arrasta-se sem sinais claros de resolução. O que começou como uma ofensiva relâmpago, aparentemente destinada a impor uma nova ordem política em Kyiv, transformou-se num confronto de desgaste brutal. A guerra redefiniu fronteiras, destruiu cidades, ceifou centenas de milhares de vidas e alterou profundamente o equilíbrio geopolítico global. Ao mesmo tempo, expôs as consequências humanitárias devastadoras do conflito, evidenciou a notável tenacidade da sociedade ucraniana e revelou também os limites, políticos, estratégicos e morais, das respostas internacionais. Nos primeiros dias da invasão, as imagens que chegavam às nossas televisões eram quase irreais: colunas de carros de combate, explosões em zonas residenciais, famílias em fuga com malas improvisadas, estações de metro transformadas em abrigos. A indignação foi imediata. Governos europeus multiplicaram declarações de repúdio, anunciaram pacotes de sanções e prometeram apoio político, financeiro e militar à Ucrânia com a sociedade civil a mobilizar-se de forma espontânea.

Mesmo em cidades médias, longe dos grandes centros políticos, a solidariedade fez-se sentir. Em Viseu, por exemplo, nos dias que se seguiram à invasão, a comunidade ucraniana, juntamente com muitos outros cidadãos, organizou recolhas de bens essenciais. Em poucas semanas, juntaram-se mais de 150 toneladas de ajuda humanitária. Mais de dez camiões TIR partiram rumo à Ucrânia, carregados de alimentos, medicamentos, roupas e esperança. Havia um sentimento coletivo de urgência moral, a convicção de que, mesmo à distância, não podíamos ficar indiferentes. Hoje o cenário é diferente. A guerra continua, mas já não ocupa o mesmo espaço emocional no quotidiano europeu. As manifestações de apoio tornaram-se mais raras, menos participadas, menos........

© Sapo