Porque é que o Ocidente já não consegue parar a China?
Um artigo de Robin Harding no Financial Times afirma que “a China pode fabricar quase tudo melhor e mais barato, e não teria nada para importar, tornando o comércio ‘impossível.” Outros economistas defendem que a China continua firmemente comprometida com a globalização económica e com o reforço do sistema multilateral de comércio centrado na Organização Mundial do Comércio (OMC). Na sua perspetiva, a ideia de que o país estaria a tornar o comércio internacional “impossível” é uma leitura enviesada, que ignora a lógica fundamental e a dinâmica real do comércio global. Com a expansão da economia chinesa, empresas e consumidores passaram a dispor de maior poder de compra, fazendo das importações um dos principais motores do crescimento económico. Em 2025, estas deverão ultrapassar os 15,19 biliões de yuans (cerca de 2,12 biliões de dólares), impulsionadas sobretudo pela procura de produtos alimentares diversificados.
Dos EUA à Europa, do Brasil à Austrália, da ASEAN a África e à Ásia Central a China continua a ser um mercado indispensável para bens agroalimentares, por exemplo. A China continua a importar volumes significativos de bens de elevado valor acrescentado, incluindo máquinas, equipamentos eletromecânicos e instrumentos óticos. A aposta em acordos de comércio livre, no comércio eletrónico transfronteiriço e em plataformas como a Exposição Internacional de Importação da China reforça a resiliência das cadeias de abastecimento e aprofunda a abertura económica. Assim, dizem que, longe de bloquear o comércio global, a China está a ampliar oportunidades e a oferecer novas possibilidades ao comércio internacional. Será exatamente assim? Em parte, será, mas quem define hoje as regras, preços e condições é a China mais que o Ocidente.
Durante anos, os analistas ocidentais alertaram para a iminente “desindustrialização” da China, alguns chegaram a falar em colapso. Segundo essa visão, o país seguiria o curso “natural” do desenvolvimento económico: aumento dos salários, declínio da indústria transformadora e crescente dependência de importações estrangeiras. O que ocorreu, porém, foi exatamente o oposto. A China aprofundou a sua industrialização, ampliou investimentos, expandiu capacidade produtiva em praticamente todos os setores e atingiu um ponto em que muitos fabricantes estrangeiros passaram a perceber que já não há quase nada de que a China necessite e que ela própria não consiga produzir de forma mais barata, mais rápida ou em maior escala. E mais, hoje fazem-no com a qualidade que o Ocidente reclamava para si em exclusivo!
O objetivo estratégico de Washington tornou-se, então, evidente: retirar a China das cadeias globais de abastecimento e reconstruir um sistema em que a produção industrial essencial retornasse aos Estados Unidos. Multinacionais foram pressionadas a abandonar a China, deslocando fábricas para a Índia, Vietname ou outros países, enquanto cadeias de fornecimento eram reestruturadas. A Apple ilustra bem esse processo. Ao transferir parte da montagem do iPhone para a Índia, descobriu rapidamente que qualidade consistente, densidade da cadeia de abastecimento e disciplina industrial não são atributos facilmente transferíveis. Os primeiros lotes produzidos na Índia apresentaram taxas elevadas de defeitos e um volume significativo de reclamações dos consumidores. O episódio serviu como lembrete de que a excelência industrial não é uma mercadoria logística. A China, hoje, mostra que não é apenas um local de produção; é um ecossistema industrial maduro, algo........
