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A viagem “secreta” de Ratcliffe: dissuasão, teste ou sinal de alarme?

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31.08.2026

Na passada semana, a 25 de agosto, o diretor da CIA, John Ratcliffe, viajou a Moscovo numa deslocação não anunciada, a primeira visita conhecida de um diretor da agência à Rússia desde que William Burns lá esteve em 2021 para tentar dissuadir Putin de invadir a Ucrânia. O encontro com Sergei Naryshkin, chefe do SVR, foi confirmado pelo próprio Naryshkin, que o descreveu como "nada de especial", parte de um "formato de trabalho padrão" com homólogos de serviços de informações com quem contacta "praticamente todas as semanas". O Kremlin, através de Dmitry Peskov, confirmou que Ratcliffe não se encontrou com Putin, e que o contacto ocorreu "ao nível dos serviços especiais".

A informação de que Ratcliffe terá levado uma advertência específica contra um ataque a países da NATO foi avançada em primeira mão pelo Wall Street Journal e confirmada depois, de forma independente, pela CBS News e pela CNN, com base em múltiplas fontes familiarizadas com o assunto, não é, portanto, uma alegação isolada nem anónima no sentido frágil do termo, mas também não foi confirmada oficialmente por Washington ou por Moscovo. Trump, questionado diretamente, minimizou a viagem como "semirrotineira", negando que estivesse relacionada com o Irão ou com receios sobre a NATO, mas admitiu que "algo pode sair" do encontro, referindo-se às negociações sobre a Ucrânia. Esta é a zona cinzenta que qualquer análise séria deve assinalar com honestidade, e que reportagem mais recente do New York Times começou, entretanto, a preencher com detalhe considerável.

Um facto adicional, esse confirmado por um responsável ucraniano sénior à CBS e à Axios, reforça a seriedade do episódio: Washington pediu a Kyiv que suspendesse ataques de longo alcance durante a deslocação da delegação a Moscovo. Um pedido desta natureza não se faz para uma reunião rotineira, sugere que os EUA quiseram garantir uma janela operacional protegida para uma conversa que consideravam sensível o suficiente para não arriscar ser interrompida por uma escalada simultânea no terreno.

Reportagem subsequente do New York Times acrescentou detalhe substantivo a um episódio que, até agora, assentava sobretudo em confirmação do encontro sem confirmação do seu conteúdo. Segundo o NYT, Ratcliffe transmitiu ao interlocutor russo, identificado como Alexander Bortnikov, diretor do FSB, com quem mantém desde a tomada de posse da administração Trump um canal de contactos usado também para negociar trocas de prisioneiros, uma avaliação deliberadamente desconfortável da situação no terreno: que a Rússia conquistou apenas cerca de 1% do território ucraniano nos últimos dezoito meses, que a esperança de vida de um soldado russo na linha da frente é inferior a 35 minutos, e que o domínio ucraniano da tecnologia de drones está a impor custos insustentáveis ao esforço de guerra russo. Significativamente, Ratcliffe não terá proferido qualquer ameaça explícita sobre consequências caso Putin recuse negociar, a mensagem terá sido construída para ser persuasiva pelos factos, não coerciva pela ameaça.

Dois elementos adicionais merecem destaque. Primeiro, antes da viagem, Ratcliffe garantiu aos seus homólogos ucranianos que iria explorar as posições russas, não negociar concessões em nome de Kyiv, uma distinção que, a ser respeitada, contraria a leitura de que esta seria uma diplomacia paralela a substituir os canais ucranianos. Segundo, e mais revelador, a visita contradiz diretamente a caracterização do próprio Trump, que a descreveu como "assunto de rotina" e sem qualquer mensagem específica, uma discrepância que, por si só, já diz algo sobre a gestão pública deste dossiê.

O mais interessante, porém, é o que o NYT descreve como a lógica subjacente à escolha do mensageiro. Segundo o jornal,........

© Sapo