A maior lição da Ucrânia não são os drones. São as instituições
Há uma imagem confortável que o Ocidente gosta de contar sobre a Ucrânia: a de um exército de "MacGyvers" que, com fita adesiva, impressoras 3D e engenho, transformou drones de vídeos de casamento em armas de guerra. É uma boa história. É também uma história incompleta e perigosamente sedutora para quem, como nós, gosta de acreditar que a criatividade resolve aquilo que as instituições não conseguem organizar.
O estudo User Innovation in Military Drone Development: The Russo-Ukrainian War, 2022–2025, de Emilie Berthelsen e Rasmus Koss Hartmann, publicado pela The Swedish Agency for Growth Policy Analysis, parte precisamente dessa narrativa para colocar uma questão muito mais interessante do que perguntar se "os soldados ucranianos são engenhosos". Pergunta como é que esse engenho deixou de ser um conjunto de improvisações dispersas para se transformar num sistema capaz de produzir, em 2024, cerca de 1,5 milhões de drones FPV, satisfazendo aproximadamente 96% das necessidades das Forças Armadas ucranianas.
A literatura ocidental tende a privilegiar as histórias de sucesso, alimentando uma certa mitologia da improvisação ucraniana. É, por isso, importante não esquecer que, por cada inovação bem-sucedida que chega às manchetes, existem dezenas de experiências falhadas, recursos investidos sem retorno e soluções que nunca ultrapassaram a fase experimental. A guerra é também um processo de tentativa e erro, onde o fracasso constitui uma parte inevitável da aprendizagem. O mérito do estudo não está em negar a extraordinária capacidade de adaptação das forças ucranianas, mas em identificar os mecanismos institucionais que permitiram transformar essa aprendizagem numa capacidade militar escalável e sustentável. É precisamente essa distinção que importa reter para quem hoje pensa a defesa europeia.
A resposta é desconfortável para quem prefere narrativas heroicas: não foi a espontaneidade que venceu. Foi a organização da espontaneidade. Existe um encadeamento causal que a mitologia do "engenho ucraniano" costuma omitir.
Em primeiro lugar, a Ucrânia entrou na guerra com um excedente de capital humano altamente qualificado. Antes de 2022, possuía uma indústria de software que exportava mais de cinco mil milhões de dólares por ano, um sector consolidado de drones agrícolas e uma base industrial de defesa responsável por cerca de um quinto do equipamento militar utilizado pelo próprio país. Quando a mobilização levou milhares de engenheiros, programadores e técnicos para a frente de combate, não criou soldados inovadores. Revelou competências que já existiam. A criatividade nunca surge do vazio. Assenta sempre numa base prévia de conhecimento técnico.
Em segundo lugar, o Estado-Maior ucraniano concentrou deliberadamente esse talento em unidades consideradas particularmente aptas para experimentar novas soluções. A literatura........
