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O impacto da Inteligência Artificial na produtividade empresarial

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19.02.2026

Por Mark Dixon, CEO e Fundador da International Workplace Group (IWG)

A tecnologia sempre moldou a forma como trabalhamos. O que distingue o momento atual não é a mudança em si, mas a velocidade a que acontece. Os avanços na Inteligência Artificial estão a acelerar o mundo profissional a um ritmo que muitas organizações e profissionais ainda têm dificuldade em acompanhar.

O debate público tende a concentrar-se no desaparecimento de empregos e nos desafios que as gerações mais jovens enfrentarão ao entrar no mercado de trabalho. No entanto, ainda se dedica pouca atenção às oportunidades de crescimento e progresso que esta transformação cria.

Estou no mundo empresarial há cinco décadas, pouco mais de metade das quais vividas numa era analógica. Recordo-me bem do surgimento do email, há mais de 20 anos. Na maioria dos casos, as empresas que se mostraram profundamente céticas e optaram por manter processos antigos e familiares não sobreviveram à transição. O progresso seguiu o seu curso sem elas.

Hoje, estamos num ponto de inflexão semelhante. A IA já está a aumentar a produtividade, a abrir novos percursos profissionais e a desafiar o status quo em praticamente todos os setores. De acordo com o estudo Global Workforce of the Future 2025, da Adecco, 60% dos profissionais portugueses já reconhecem que a Inteligência Artificial está a criar novas oportunidades de emprego, enquanto 69% afirmam que as suas funções profissionais já se encontram em transformação, evidenciando o impacto profundo desta tecnologia na redefinição de tarefas, competências e percursos de carreira no mercado de trabalho português.

A Inteligência Artificial não é o fim do trabalho – é o início de um trabalho melhor

Cada vez mais, são os colaboradores mais jovens que ensinam os colegas a utilizar as ferramentas que redefinem o trabalho moderno. Um estudo recente da International Workplace Group (IWG) demonstra que os profissionais da Geração Z desempenham um papel central na adoção da Inteligência Artificial nas empresas. Quase dois terços dos trabalhadores mais jovens ajudam ativamente colegas mais experientes a aprender e a utilizar ferramentas de IA – desde formações práticas até à partilha de dicas que integram a IA nos fluxos de trabalho diários. Esta mentoria inversa tem sido determinante para desbloquear ganhos reais em produtividade e colaboração.

No entanto, apesar destes avanços, a ansiedade continua a dominar grande parte da discussão. De acordo com um inquérito do Fórum Económico Mundial, mais de metade dos executivos acredita que a IA vai substituir empregos, alimentando o receio de que as funções de entrada no mercado de trabalho estejam a ser automatizadas, o que dificulta a progressão profissional dos jovens. Embora esta realidade gere apreensão, é importante reconhecer que vivemos num contexto em que a IA está também a criar novas funções e oportunidades.

Em Portugal, dados do INE mostram que a adoção da Inteligência Artificial está a acelerar, com cerca de 11% das empresas já a utilizarem estas tecnologias. Um estudo da Experis indica ainda que 40% dos empregadores recorrem à IA nos processos de recrutamento e integração, sobretudo em startups e empresas tecnológicas. Apesar do seu elevado potencial económico, com impacto na produtividade e no crescimento do PIB, a adoção da IA evidencia uma lacuna relevante, já que apenas uma minoria dos trabalhadores portugueses recebeu formação formal nesta área, reforçando a necessidade urgente de investimento em requalificação e educação.

A formação impulsionada pela Inteligência Artificial está a acelerar os processos de aprendizagem de formas nunca antes vistas – seja na escola, na universidade ou no local de trabalho. Esta geração aprende significativamente mais depressa do que as anteriores. Haverá, inevitavelmente, mudanças e, embora possa verificar-se uma redução pontual em alguns níveis de empregabilidade, a realidade é que os empregos irão transformar-se.

A Lei de Moore e o progresso exponencial

Para compreender o que está a acontecer hoje é útil olhar para trás. No início da década de 1970, a Intel lançou o 4004, o primeiro microprocessador comercial do mundo. Pouco depois, o seu cofundador, Gordon Moore, identificou um padrão revelador: o número de transístores (componentes responsáveis pelo processamento de informação nos chips) duplicava aproximadamente a cada dois anos. Moore não procurava criar um slogan, mas descreveu algo essencial – o progresso tecnológico não é linear, é exponencial.

Esta observação ficou conhecida como a Lei de Moore. A sua mensagem é simples e poderosa: ao fim de dois anos, não se obtém uma melhoria marginal, mas sim um salto significativo.

A velocidade do negócio

É aqui que reside o erro que cometemos ao avaliar o impacto da Inteligência Artificial. Continuamos a encará-la como uma ferramenta de eficiência moderada, quando, na realidade, faz parte de uma curva exponencial. Trata-se da mudança mais profunda que testemunhei desde que fundei a Regus, em 1989. A transformação exponencial não afeta apenas funções ou profissões – altera a própria velocidade a que os negócios operam.

A suposição comum é a de que as empresas continuarão a operar ao mesmo ritmo, mas com menos pessoas. Essa ideia está errada. Quando os indivíduos conseguem produzir dez ou vinte vezes mais num único dia, as organizações não ficam estagnadas – expandem a sua atuação. É verdade que os empregos irão mudar. Algumas funções poderão diminuir e a entrada no mercado de trabalho será diferente. Mas, historicamente, as grandes mudanças tecnológicas não reduziram a atividade económica; redefiniram-na. Quem desenvolveu novas competências e soube adaptar-se evoluiu mais rapidamente do que os restantes.

A Inteligência Artificial é também um professor substancialmente mais eficaz do que o modelo de aprendizagem por observação. A formação apoiada pela IA permite acelerar a curva de aprendizagem como nunca antes, começando cada vez mais cedo, ainda em contexto escolar, muito antes do primeiro emprego. Ao eliminar tarefas repetitivas e aumentar a eficiência, a IA liberta tempo e espaço para que as pessoas se concentrem naquilo que fazem melhor: pensar de forma criativa, resolver problemas complexos e gerar novas ideias.

Num mundo moldado pela IA, quem tem iniciativa ganha vantagem

Uma das qualidades que mais valorizo nos futuros talentos é a capacidade de utilizar a Inteligência Artificial de forma eficaz, compreendendo como esta pode amplificar o potencial de uma organização. Os profissionais que já investem em ferramentas de IA e aprendem ativamente a tirar partido das mesmas, partem em clara vantagem: trazem novas competências, energia e inovação para empresas em rápido crescimento, impulsionando a produtividade e a competitividade.

Os jovens precisam de olhar para o futuro e colocar questões fundamentais: “Onde vou adquirir a melhor experiência profissional neste novo contexto?” “Tenho as competências que as empresas do futuro irão valorizar?” No passado, os profissionais mais ambiciosos aprendiam programação à noite ou adquiriam qualificações adicionais em paralelo com o trabalho. Essa mentalidade é hoje mais relevante do que nunca. Não basta depender exclusivamente das escolas ou universidades. É essencial procurar comunidades, participar em clubes de IA, aprender de forma autónoma as ferramentas que estão a transformar indústrias inteiras e assumir a responsabilidade pelo próprio desenvolvimento.

Definir o caminho para o futuro

Todas as grandes transformações tecnológicas seguem um padrão semelhante: muitos mantêm-se fiéis ao que conhecem, enquanto uma minoria se adapta rapidamente e colhe os benefícios. O que distingue este momento é a velocidade. A dinâmica dos negócios está a acelerar a um ritmo superior ao de qualquer outro período recente.

A Inteligência Artificial, tal como os primeiros microprocessadores da Intel, é uma tecnologia fundamental – uma base sobre a qual tudo o resto é construído e transformado. Não é uma possibilidade distante nem uma tendência passageira. Já é o motor da escala, da eficiência e da vantagem competitiva.

Aqueles que estiverem dispostos a envolver-se, aprender e experimentar desde já descobrirão que as oportunidades se expandem em vez de diminuírem. A história é clara: em períodos de mudança exponencial, quem age primeiro, ganha.


© Sapo