menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Energeticamente falando, sabia que…?

10 5
20.02.2026

Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

A ciência e a tecnologia têm vindo a promover o desenvolvimento da sociedade humana, por vezes também criando alguns problemas, mas com um balanço positivo. Seguramente que, nesta fase de mudança de paradigma energético e ambiental, tal irá continuar a acontecer.

E para termos uma perceção disso, nada melhor do que fazer aqui um apanhado de alguns avanços tecnológicos que têm sido divulgados nos últimos tempos e que nos dão uma panorâmica e perspetivas de evolução no domínio energético. Aqui ficam:

a Rolls-Royce lançou uma instalação modular de produção de energia elétrica preparada para utilizar hidrogénio (com módulos de 5 a 30 MW);

a primeira turbina a gás de 30 MW que usa apenas hidrogénio, produzido com o excesso de eletricidade renovável, entrou em operação na China;

na Finlândia estão a usar os excessos de produção de energia elétrica por via eólica e solar (em algumas alturas do ano) para produzir calor que aquece silos bem isolados de areia a cerca de 500-600ºC transformando-os numa bateria térmica de longa duração (muito mais barata que uma de lítio equivalente);

na China foi desenvolvida uma turbina eólica de alta altitude (ventos mais fortes e constantes), que funciona como um dirigível ancorado por cabos, explorando zonas subutilizadas e reduzindo limitações físicas (não necessita de áreas terrestres ou offshores);

investigadores japoneses conseguiram extrair, com sucesso, terras raras de um depósito marinho em águas profundas no Pacífico (6 mil metros) promovendo a futura independência do Japão neste domínio;

na Noruega estão a produzir massivamente kelp (alga) em “quintas marinhas”, capturando carbono mais rapidamente que as florestas (colheita várias vezes por ano) e limpando os oceanos, sendo que estas algas podem ser utilizadas na produção de biocombustíveis;

aconteceu em janeiro a viagem inaugural (operação real a longas distâncias) de um navio graneleiro abastecido com metanol verde, um marco para a descarbonização do transporte marítimo;

no Brasil foi criado o primeiro reator solar-salino offshore, que transforma diretamente água salgada em hidrogénio (76% eficiência), que utiliza um elétrodo resistente à corrosão e uma membrana grafeno com revestimentos ativados por luz UV;

a Altilium (Reino Unido) desenvolveu o processo EcoCathode que recupera 97% do lítio e 99% da grafite das baterias LFP usadas;

foram desenvolvidas fachadas que funcionam como biorreatores, com painéis verticais de vidro que contêm água e algas, em que as algas ao crescer removem dióxido de carbono e são no final usadas para produzir biocombustível, sendo que a fachada ajuda a regular a temperatura do edifício;

uma universidade austríaca desenvolveu uma carcaça de bateria que usa uma estrutura híbrida de aço, madeira e cortiça, em que esta última reforça a segurança em caso de incêndio.

A nível nacional algumas questões relacionadas com estas soluções se podem levantar:

se viermos a produzir hidrogénio verde a opção da sua utilização para a produção de energia elétrica será viável?

os perfis de produção de excessos de energia elétrica renovável serão adequados para o uso de baterias térmicas?

temos na nossa costa possibilidade de utilizar turbinas eólicas de alta altitude?

haverá depósitos de terras taras nas nossas áreas territoriais?

será possível produzir nacionalmente biocombustíveis a partir de kelp?

será de considerar nos projetos de arquitetura, nomeadamente de edifícios públicos, a exigência do conceito de arquitetura biológica?

estando Portugal em zona de intensas rotas marítimas, será de considerar a produção nacional de metanol (via hidrogénio verde e dióxido de carbono biogénico) para abastecimento destas frotas? E possível expansão para o mercado rodoviário?

com a nossa exposição marítima será de considerar a produção de hidrogénio offshore, sem necessidade de água doce?

com as tecnologias de reciclagem de baterias existentes, será de começar a pensar na instalação a nível nacional de um setor de reciclagem das baterias dos EV?

já temos o lítio, será que agora com a incorporação da cortiça se reforça a oportunidade de desenvolver uma fileira nacional para as baterias?

Muitas soluções inovadoras, muitas questões, muitas oportunidades!


© Sapo