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A vantagem humana na era das máquinas

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26.03.2026

“Quando as máquinas se tornam mais inteligentes, os seres humanos têm de se tornar mais humanos.” Esta é a convicção que orienta a Handelshögskolan, Stockholm School of Economics, uma das instituições de ensino superior mais prestigiadas da Suécia, conhecida pelo acrónimo SSE. Sob a liderança do reitor Lars Strannegård, uma referência na área da gestão na Suécia, a escola distingue-se por colocar a cultura e os valores no centro da formação, combinando rigor económico com reflexão humanística. Para o reitor, quem se prepara para o futuro precisa não apenas de factos e capacidade analítica, mas também de empatia, criatividade e reflexão. O modelo da SSE oferece um exemplo inspirador para Portugal, onde cresce o debate sobre como formar uma nova geração de profissionais mais atentos às pessoas, à cultura e ao bem-estar social.

Strannegård recorda, com humor, que na juventude foi um “slacker” e faltava com frequência às aulas. Hoje trabalha para reforçar a meritocracia e alargar o leque social de estudantes. Para ele, a questão não é quotas ou políticas de representação, mas qualidade. Um grupo de estudantes heterogéneo é essencial para o ensino. Ambientes homogéneos empobrecem o debate e limitam a imaginação. Por isso, sem abdicar da exigência académica, o sistema de admissão da SSE procura diversidade de género, origens sociais e percursos de vida, desde atletas de elite até estudantes vindos de outras culturas.

Sob a sua liderança, a cultura tornou-se visível no campus. Strannegård argumenta que muitos cursos de economia parecem frios e estéreis para estudantes com interesses culturais. Na SSE, a arte entrou nas salas de aulas. A presença física de objectos de arte e debates sobre cultura e filosofia convidam os alunos a parar, observar e pensar, cultivando empatia, estimulando a imaginação e treinando o pensamento criativo.

Strannegård critica ainda a posição relativamente frágil da cultura e da formação humanística na sociedade sueca, que difere de países como França ou Reino Unido, onde a cultura clássica integra naturalmente o percurso de quem ocupa posições de destaque na sociedade. Um exemplo emblemático é Boris Johnson, que certa vez recitou, de memória, passagens da Ilíada durante quase dez minutos. No Reino Unido, um gesto destes despertaria curiosidade ou admiração; na Suécia, provavelmente causaria perplexidade. Para o reitor da SSE, essa diferença cultural mostra por que a cultura não deve ser vista como adorno, mas como fundamento da educação.

Esta visão reflete-se também noutra iniciativa da SSE. A escola criou o Center for Wellbeing, Welfare and Happiness, dedicado a estudar a relação entre bem-estar, economia e sociedade. O centro é dirigido pelo professor Michael Dahlén, frequentemente descrito como o primeiro professor de felicidade do mundo. A iniciativa amplia o horizonte do ensino económico, abrindo espaço a questões sobre sentido, qualidade de vida e felicidade humana.

Num momento em que a inteligência artificial se infiltra em todos os sectores, Strannegård insiste que o avanço tecnológico exige uma resposta cultural e humana equivalente. Na prática, isso significa apostar em interdisciplinaridade, projectos concretos e reflexão cultural. Os estudantes aprendem a resolver problemas, adaptar-se a ambientes desconhecidos, pensar criticamente e compreender pessoas, motivações e valores.

Em Portugal, o debate já não é apenas teórico. Preparar as próximas gerações não se resume a ensinar algoritmos ou a analisar balanços. A experiência da SSE mostra que a economia não é apenas números: é também pessoas. Cultura, empatia e capacidade de escutar quem pensa de forma diferente. Num mundo em que as máquinas decidem cada vez mais, a vantagem humana não está em competir com elas, mas em reforçar aquilo que nos torna humanos.

Num país de tradição humanista tão rica, esta lição merece atenção. Precisamos de pessoas capazes de ler um gráfico e um poema, de entender dados e emoções. A tecnologia continuará a avançar. A questão é se a nossa humanidade avança com ela.


© Sapo