As nádegas dos escritores
Numa oficina de escrita da Escuela de Imaginadores (Madrid), a escritora argentina Samanta Schweblin — depois de descrever o seguinte cenário: “Estou na praça com a mamã e o papá” — comenta que a maioria das pessoas, ao ouvir esta frase, irá pensar que está calor, que é durante o dia, que a narradora terá oito ou dez anos.
Se um escritor decidir detalhar melhor a descrição inicial e o fizer como a maioria das pessoas imaginou tal cena, estará apenas a escrever o lugar-comum, aquilo que a maioria imagina quando ouve ou lê tal frase. Para Samanta Schweblin, literatura é resistir a este lugar, resistir a nós mesmos, lutar contra aquilo que temos por assumido.
A escritora decide então dar um exemplo de como resistir à previsibilidade, um exemplo que ela própria diz não ser nada de espectacular, mas que — promete Schweblin — nos fará sentir algo: “Estou na praça com a mamã e o papá. Está frio. É de noite. O papá tem noventa anos e acaba de sair nu........
