Dissonância cognitiva e o alto preço de defender uma mentira
Se alguém lhe disser que você sofre de dissonância cognitiva, caro leitor, procure compreender o significado dessa afirmação antes de recebê-la como ofensa. A pessoa está sugerindo que suas crenças entraram em conflito com informações ou comportamentos que você encontra dificuldade para conciliar. Imagine descobrir que uma causa à qual dedicou vinte anos de sua vida foi construída sobre informações falsas. Quantas amizades você perdeu defendendo-a? Quanto dinheiro gastou? Quantas vezes desprezou quem tentou mostrar-lhe outra versão dos acontecimentos? Reconhecer o erro exigiria enfrentar também essas perdas. É precisamente nesse momento que podemos começar a inventar explicações para continuar acreditando, porque abandonar uma convicção pode parecer mais doloroso do que permanecer no engano.
Em 1954, um grupo de norte-americanos esperava ser resgatado por um disco voador antes que uma inundação destruísse a Terra. Alguns haviam abandonado empregos, vendido bens e se despedido de familiares. A data anunciada chegou, a nave não apareceu e o mundo continuou exatamente onde estava. Segundo o relato que se tornaria célebre, alguns seguidores aceitaram a explicação de que sua fé havia impedido a catástrofe. A interpretação desse episódio seria posteriormente questionada por pesquisadores.
O psicólogo Leon Festinger acompanhou aquele episódio e, três anos depois, apresentou uma teoria que ajuda a compreender contradições muito mais próximas de nossa vida cotidiana. Chamou-a de dissonância cognitiva. A ideia é relativamente simples: quando aquilo em que acreditamos entra em choque com aquilo que fazemos ou com informações que recebemos, surge uma tensão que procuramos resolver. Podemos mudar de opinião, corrigir nosso comportamento ou inventar explicações para continuar acreditando.
Imagine alguém que passou anos defendendo um político como exemplo de honestidade. Surgem documentos, gravações e decisões judiciais demonstrando que aquele personagem praticou atos que sempre condenou publicamente. Seu admirador enfrenta uma escolha difícil. Pode reconhecer que se enganou ou procurar alguma justificativa para preservar a antiga admiração. Frequentemente, a segunda alternativa parece emocionalmente menos dolorosa, sobretudo quando a pessoa já rompeu amizades e relações familiares defendendo aquela liderança.
Festinger investigou essa dificuldade num experimento realizado em 1959 com o psicólogo........
