Apagaram a noite sem nos avisar
Nesta semana do equinócio de primavera, com o dia e a noite repartindo quase por igual as vinte e quatro horas de Brasília, apaguei as luzes da varanda, guardei o celular numa gaveta e procurei a Via Láctea sobre o Planalto Central. Vieram antes o halo alaranjado da cidade, o rumor contínuo das avenidas, um cachorro latindo para algum alarme de carro. Algumas estrelas ainda resistiam, empurradas para as margens do céu. A experiência durou poucos minutos; a constatação ficou: perdemos uma parte do mundo sem perceber o instante exato em que ela começou a desaparecer.
Nenhum decreto aboliu a escuridão. Nenhuma autoridade comunicou o fim do silêncio. A ocupação avançou poste a poste, fachada a fachada, farol a farol, tela a tela, notificação a notificação. Prolongamos o dia para dentro da madrugada e levamos essa claridade até o quarto, a cama, a palma da mão. O relógio continuou marcando horas noturnas enquanto a própria ideia de recolhimento encolhia. A modernidade conseguiu uma proeza curiosa: desalojou duas experiências que acompanharam a vida durante milênios sem precisar anunciar que estava fazendo isso.
Os números dão materialidade ao que os olhos já suspeitam. Em 2016, Fabio Falchi e uma equipe internacional publicaram na Science Advances o Atlas Mundial do Brilho Artificial do Céu Noturno: mais de 80% da população do planeta vive sob céus contaminados por luz artificial e mais de um terço já perdeu a visão da Via Láctea. Em 2023, Christopher Kyba e seus colegas analisaram 51.351 observações feitas entre 2011 e 2022 e chegaram, na Science, a outro resultado inquietante: o brilho do céu percebido pelo olho cresceu, em média, 9,6% ao ano. Num lugar onde uma criança enxerga hoje 250 estrelas, poderá restar-lhe menos de uma centena aos 18 anos.
Céus noturnos preservados
O assunto já alcançou o Congresso brasileiro. Em 10 de junho deste ano, a Comissão de Turismo da Câmara aprovou parecer favorável ao Projeto de Lei 1.975/2021, que cria um programa de certificação e divulgação de sítios com céus noturnos preservados; a matéria seguiu para a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. No Senado, o PL 5.103/2025 propõe incluir a poluição luminosa na Lei de Crimes Ambientais e, desde março, aguarda designação de relator. A legislação começa a procurar palavras para uma perda que as cidades produziram muito antes de reconhecê-la.
O silêncio percorreu estrada semelhante. A Organização Mundial da Saúde situa o ruído entre os grandes fatores ambientais de adoecimento na Europa, atrás da poluição do ar em carga de doença, associado a distúrbios do sono e doenças cardiovasculares. Brasília mede seu próprio barulho........
