Mãe Beata de Iemanjá e o direito à memória
No dia 2 de fevereiro, o Brasil se volta para o mar. Milhares de pessoas levam flores, perfumes, pedidos e agradecimentos às águas de Iemanjá. O gesto se repete ano após ano, atravessando gerações, pessoas de diferentes crenças e classes sociais. Mas, enquanto as oferendas seguem para o oceano, e têm hoje um glamour e destaque como a Festa de Yemanjá na praia do Arpoador, zona sul do Rio de Janeiro, que foi oficializada como Patrimônio Cultural Imaterial do Município do Rio de Janeiro (Lei 9.240/26), uma pergunta importante permanece incômoda: quem sustentou essa memória quando essa manifestação de fé era proibida, criminalizada e ridicularizada? Entre muitos nomes, destaco nessa matéria uma força incontornável: Mãe Beata de Iemanjá.
Falar de Mãe Beata não é falar apenas de religião. É falar de memória negra, de direito à palavra, de disputa política sobre o que pode ou não ser reconhecido como conhecimento no Brasil. É falar de uma mulher que fez do terreiro um espaço de escrita da história, ainda que essa escrita não obedecesse às regras do papel, da universidade ou do cânone literário tradicional.
Mãe Beata nasceu em 1931, no Recôncavo Baiano, em circunstâncias que ela mesma narrava como fundadoras de sua trajetória: veio ao mundo numa encruzilhada, em meio à fome, à água do rio e à presença de uma parteira africana. Não se trata de folclore. Trata-se de cosmologia. Desde o........
