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Conservadorismo internalizado e a naturalização da violência contra mulheres

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08.03.2026

Pesquisa mostra que 40% a 44% dos homens e 28% a 34% das mulheres justificam agressão a mulheres que traem, revelando lógica punitiva enraizada.

Brasil registrou cerca de 1.470 feminicídios em 2024, o maior número desde a tipificação do crime em 2015, segundo Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Mais de 13 mil mulheres foram mortas por inúmera motivação de gênero entre 2015 e 2024, maioria em contextos de violência doméstica.

Estudo de Felipe Nunes indica que valores conservadores são reproduzidos por parcelas expressivas de mulheres, resultado de socialização patriarcal prolongada.

As críticas dirigidas à mulher de Itumbiara nas redes sociais digitais evidenciam como o julgamento moral feminino ainda opera como mecanismo de controle social no Brasil. Longe de se tratar de um episódio isolado, o caso expõe valores culturais que associam honra, punição e vigilância ao comportamento das mulheres.

Os dados reunidos na obra Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, ajudam a compreender a profundidade desse fenômeno. A pesquisa aponta um paradoxo persistente na cultura política brasileira: o país convive com discursos públicos de tolerância e modernização, mas mantém padrões morais conservadores que estruturam a desigualdade de gênero. Um dado relevante é que esses valores não são sustentados apenas por homens, mas também por parcelas expressivas de mulheres, o que revela a força de processos de socialização que moldam percepções e expectativas ao longo da vida.

Normas tradicionais de gênero permanecem amplamente difundidas, especialmente a associação entre realização feminina e maternidade, a expectativa de contenção emocional masculina e a atribuição ao homem do papel de provedor. Essas ideias não aparecem como opiniões isoladas, mas como referências morais compartilhadas, capazes de definir o que é considerado aceitável ou condenável no comportamento feminino.

É nesse contexto que a violência tende a ser relativizada. Quando parcela significativa da população considera justificável cometer o crime de agredir uma mulher que trai, não se observa apenas conservadorismo moral, mas a presença de uma lógica punitiva direcionada ao controle do comportamento feminino. Entre 40% e 44% dos homens, a depender da cor, concordam com essa justificativa; entre as mulheres, o percentual varia entre 28% e 34%, segundo o levantamento. Trata-se de um dado que indica a persistência de valores que naturalizam a desigualdade.

A concordância feminina com tais punições não deve ser interpretada como adesão consciente à própria subordinação. Trata-se, antes, do efeito de uma socialização prolongada em normas patriarcais que ensinam, desde cedo, quais condutas devem ser aceitas, toleradas ou condenadas. Esses valores acabam sendo reproduzidos porque são incorporados como referências legítimas de ordem social.

Essa moral opera ainda por meio de um duplo padrão: a traição masculina tende a ser relativizada, enquanto a feminina é severamente condenada. Ao mesmo tempo, a violência costuma ser tratada como excesso individual, e não como expressão de expectativas sociais amplamente compartilhadas. Desloca-se, assim, o foco do agressor para a conduta da vítima, reforçando uma cultura de responsabilização feminina.

Os dados recentes sobre violência letal reforçam a gravidade do cenário. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, o país registrou cerca de 1.470 casos de feminicídio naquele ano, o maior número desde a tipificação do crime, em 2015. A média aproxima-se de quatro mulheres assassinadas por dia em razão de sua condição de gênero. Entre 2015 e 2025, mais de 13 mil mulheres foram mortas em crimes classificados como feminicídio, majoritariamente em contextos de violência doméstica.

O contraste entre o endurecimento das penas e a manutenção de índices elevados de violência indica que a resposta penal, isoladamente, não altera padrões culturais enraizados. A persistência do fenômeno sugere que a violência contra mulheres não pode ser compreendida apenas como desvio individual, mas como expressão de valores que continuam a orientar comportamentos e julgamentos sociais.

Enfrentar a violência de gênero exige, portanto, mais do que legislação punitiva. Requer transformação cultural, educação continuada e revisão crítica das normas que organizam de forma desigual as relações entre homens e mulheres. Enquanto essas referências morais permanecerem legitimadas no cotidiano, a violência seguirá encontrando justificativas simbólicas. O desafio não é apenas jurídico, é também cultural e político.

Vanessa Marques é consultora política, professora e pesquisadora em comunicação política há 21 anos. Mestre pela Universidade Politécnica de Valência, na Espanha, e mestre em Comunicação Política pelo IDP. Pós-graduada em Economia e Ciência Política, atua com análise de discurso, cultura política e estratégias de comunicação.


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