Bares Brasil afora (e adentro) XII – Osasco, Valença do Piauí, Missão Velha e Pirassununga
Osasco (SP)
No final de 1983 fui trabalhar na Secretaria de Bem-Estar Social de Osasco, município da Região Metropolitana de São Paulo. Era tempo de recessão e, em menos de um ano, o número de favelas do município havia pulado de 15 para 75.
Ali dava para se ver claramente o resultado social de uma recessão econômica. As novas favelas eram ocupadas por gente que perdia o emprego, virava autônomo e não tinha mais condições de pagar aluguel.
Uma equipe muito boa trabalhava na Secretaria e uma das nossas preocupações era que esse pessoal vinha de um modo de vida restrito à família, sem uma vida social e sem sequer saber se organizar e reivindicar, o que tinha duas consequências: a primeira era que eles não reivindicavam água, luz etc., e viviam muito mal. A outra era que logo aparecia algum bandidão que virava “xerife” da favela, mandava e desmandava e cobrava até “pedágio” dos moradores, que não se organizavam para impedir isso. Então, uma das funções da equipe era ensinar os novos favelados a se unirem, formando uma comissão diretora da favela para reivindicar benefícios e para impedir a dominação por bandidos. A gente trabalhava bastante pra isso.
Fazíamos ponto num boteco a uns 50 metros de distância da Secretaria e numa padaria em frente a ele. Quando chovia, o pessoal nem ia pra casa depois do expediente. Ia todo mundo pro boteco… Quer dizer, todo mundo não. Uma pessoa tinha que ficar de plantão, esperando pedido de socorro de algum bairro pobre, pois era enchente na certa, com água invadindo ruas e casas. Se ligavam pro Corpo de Bombeiros ou pra Defesa Civil, os moradores recebiam a recomendação de ligar para essa equipe, que funcionava melhor do que eles.
Meu horário de trabalho começava às 8h da manhã e uma padaria na esquina era meu ponto de tomar café da manhã. Eu chegava lá um pouco antes das 8 horas e pedia sempre uma média de café com leite e um pãozinho com manteiga. Um dia cheguei um pouco atrasado. Faltavam uns dois minutos para as 8 horas e eu chegaria no serviço um pouco atrasado, mas não ia trabalhar com fome. Pedi uma xícara média de café com leite e um pão com manteiga e vi um rapaz me olhar com desprezo. Parecia odiar quem pedia café, especialmente com leite.
De repente, ele estalou os dedos, o garçom olhou e ele indicou o relógio marcando 8h em ponto. O garçom nem perguntou nada. Preparou uma caipirinha em copo duplo e levou para ele. Só aí vi uma placa na padaria: “Não vendemos bebidas alcoólicas antes das 8 horas da manhã”. O sujeito fazia ponto lá todos os dias e exigia sua caipirinha às 8h em ponto. E todos os dias que eu chegava meio em cima da hora à padaria e pedia uma média de café com leite e um pão com manteiga, lá estava o........
