menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A Globo preparou uma arapuca para Lula – e caiu nela

15 0
02.10.2026

A Globo preparou uma arapuca para Lula – e caiu nela. Essa é a leitura política que faço da combinação entre o púlpito vazio, a possibilidade de perguntas ao candidato ausente e o cancelamento do encontro depois que essas condições foram alteradas.

Não é necessário supor uma conspiração: basta examinar o efeito que o formato poderia produzir. Lula permaneceria simbolicamente em cena, como alvo, sem estar ali para responder. A dois dias da eleição, a imagem que fica da noite de quinta-feira, 1º de outubro, é a de um fracasso. A Globo prometeu o último debate presidencial antes do primeiro turno e terminou cancelando o encontro. Para uma emissora que se apresenta como referência do jornalismo brasileiro, foi um vexame. Mas o prejuízo ultrapassa sua reputação: milhões de brasileiros perderam uma oportunidade de ouvir candidatos, confrontar propostas e avaliar quem pretende governar o país.

É preciso estabelecer os fatos para que a indignação tenha fundamento. Lula havia anunciado que não participaria. Flávio Bolsonaro, inicialmente confirmado, desistiu horas antes. A emissora atribuiu o cancelamento a decisões judiciais de última hora: uma impediu a exibição do púlpito vazio reservado a Lula e perguntas dirigidas ao candidato ausente; outra determinou a inclusão de Renan Santos. Essa foi a justificativa apresentada pela Globo, não uma conclusão que o público esteja obrigado a aceitar sem questionamento.

O episódio exige discutir a responsabilidade dos candidatos, o formato dos debates e, sobretudo, a escolha editorial de uma emissora que decidiu retirar o programa do ar. Explicar as dificuldades não encerra a discussão sobre a decisão.

O púlpito vazio e o debate que desapareceu

Informar que um candidato recusou um convite é obrigação jornalística. Transformar sua ausência em elemento permanente de encenação televisiva é uma escolha editorial. Um púlpito vazio não é um objeto neutro: produz uma mensagem, organiza a atenção do espectador e pode converter a ausência em protagonista do programa. Há um argumento legítimo em favor de cobrar o comparecimento dos candidatos. Quem disputa a Presidência deve responder a perguntas difíceis e submeter suas propostas ao escrutínio público. Isso vale para Lula, para Flávio e para qualquer outro concorrente. Mas a cobrança precisa conviver com outra exigência: o debate deve oferecer esclarecimento, e não apenas criar imagens úteis para a disputa de versões.

A Globo alegou que as alterações judiciais comprometiam as condições previamente acordadas. Mudanças às vésperas de uma transmissão realmente podem criar dificuldades. Ainda assim, cabe perguntar por que a resposta foi cancelar todo o encontro. Qual era a impossibilidade concreta de ouvir os participantes restantes? Que alternativas foram consideradas? Por que não oferecer ao público uma explicação mais detalhada sobre aquilo que teria se tornado inviável?

Não temos elementos para afirmar que seria simples reorganizar o programa em........

© Revista Fórum