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A Era da Revolução Industrial, o Partido dos Trabalhadores e o futuro do Brasil

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15.07.2026

Nicolai Kondratiev dirigiu o Instituto de Conjuntura de Moscou e, na NEP, mostrou que o planejamento estatal deve obedecer às leis de mercado e à capacidade agrícola‑industrial.

Seu conceito de ciclos longos, divulgado por Schumpeter em “Business Cycles” (1939), o consagrou como “pai da teoria dos ciclos longos”.

Em 2023, pesquisadores chineses (Leming Hu, Gang Liu e Guiai Gao) publicaram no World Review of Political Economy análise das seis ondas longas de Kondratiev, com gráfico em formato de “V”.

Dados da ACNUR indicam que deslocados forçados por conflitos dobraram na última década, chegando a 117 milhões e agravando a crise migratória nas fronteiras do Norte Global.

Estamos na “era da Revolução Industrial”, pois ela mudou o destino da humanidade, ao induzir a internacionalização do capitalismo como um sistema econômico e social, alcançando uma fase imperialista que se iniciou na virada do século XIX para o século XX. Ao mesmo tempo em que viabilizou o surgimento de experiências não capitalistas, que praticamente desapareceram do Leste Europeu no final do século XX, mas que ainda teimam em resistir no Leste Asiático no século XXI. Essa constatação, por si só, é uma exposição de motivos significativa, que justifica a investigação das ondas longas econômicas como manifestações produzidas pela evolução do modo de produção capitalista, refletindo tendências de longo prazo, e que desde meados do século XVIII esse processo assumiu a forma de expansão da própria Revolução Industrial.

Para analisar as atuais oportunidades de saltos no desenvolvimento industrial-tecnológico brasileiro, queremos localizar o Brasil no que estamos chamando de “era da Revolução Industrial”, através de uma breve periodização e estudo das estruturas das ondas longas econômicas. Partindo da perspectiva do materialismo dialético histórico, incluindo não só elementos da econometria, mas considerando o papel da geopolítica, da luta de classes e do maior partido que a classe trabalhadora brasileira conseguiu construir e que hoje está no poder central do país.

O futuro do Brasil está relacionado à capacidade da luta política que está em curso de encontrar uma janela de oportunidade histórica para avanços tecno-industriais e científicos, através de um projeto de nação soberana de longo prazo, que supere os velhos padrões de dependência impostos pelas relações profundamente assimétricas e abusivas com as potências ocidentais.

As Ondas Longas de Kondratiev, onde estamos e para onde vamos?

Nos círculos de estudos da economia política, a teoria das ondas econômicas longas é um ferramental de análise relativamente eficaz para observar tendências que se projetam no futuro. Uma “onda econômica longa” refere-se a um ciclo de duração aproximada de 40 a 60 anos, incluindo as duas fases de onda: recessão (B) e crescimento (A). Durante a década de 1920, o economista Nicolai Kondratiev ganhou espaço no governo soviético devido à sua brilhante competência técnica e à necessidade urgente de o regime reestruturar o país após a Guerra Civil. O Partido Bolchevique tinha carência de cientistas, especialistas e técnicos profissionais, assim Lênin adotou a política de recrutar intelectuais não necessariamente bolcheviques para gerir o Estado, oferecendo-lhes relativa autonomia científica. Nessa situação, Kondratiev liderou o Instituto de Conjuntura de Moscou, o primeiro centro de pesquisas econômicas soviético, foi um dos especialistas que contribuiu diretamente para a aplicação da Nova Política Econômica (NEP), e provou que o planejamento estatal precisava respeitar as leis do mercado, as capacidades produtivas agrícolas e sua relação com o desenvolvimento tecno-industrial.

Mas a principal contribuição de Nicolai Kondratiev que ficou para a história foram os seus estudos sobre a teoria das “ondas longas econômicas”. Embora outros estudiosos já tivessem abordado esse tema anteriormente, o reconhecimento de Kondratiev como o “pai da teoria dos ciclos longos” se deu por parte de vários intelectuais importantes como Schumpeter, especialmente em sua obra “Business Cycles” (1939), popularizando o conceito de “ciclo de Kondratiev”. Na década de 1960, Ernest Mandel foi um dos primeiros a retomar os estudos sobre ondas longas no pós-guerra e previu com precisão o fim da fase de crescimento econômico global que se deu na década de 1970. No Brasil, intelectuais como Inácio Rangel e Theotônio dos Santos também sempre utilizaram essa ferramenta teórica para fundamentar suas elaborações. Mais recentemente, a crise econômica que se abriu a partir de 2008 também voltou a impulsionar estudos preocupados com crises estruturais e ondas econômicas longas.

O estudo sobre as ondas longas obteve avanços importantes e acumula hoje correntes de pensamento que elaboraram diferentes métodos de análise e de periodização para explicar tal fenômeno econômico. A opção desse artigo é analisar as ondas econômicas de longo prazo num viés materialista dialético histórico. Nossa referência acadêmica se encontra brilhantemente fundamentada no artigo: “The Periodization and Analytical Framework of Economic Long Waves: A New Study from the Perspective of Historical Materialism”. O trabalho foi publicado em 2023 no periódico científico World Review of Political Economy, pelos acadêmicos chineses Leming Hu, Gang Liu e Guiai Gao. Esses autores criticam a abordagem tradicional de medir os ciclos de “vale a vale” (de uma crise até a próxima). Para evitar um descompasso com os ciclos de inovação tecnológica, eles adotaram a metodologia proposta pela economista Carlota Perez, que mede os ciclos de “pico a pico”.

Para uma compreensão mais adequada do que estamos tentando apresentar, convidamos o leitor a observar o gráfico abaixo. Em seguida, vamos fazer um esforço interpretativo, analisando em que momento estamos do desenvolvimento capitalista no século XXI e quais as tendências estão se desenhando para o futuro, nos apoiando em autores que possuem uma metodologia analítica similar à nossa.

Figura 1: Ondas longas em perspectiva histórica dialética / Produção: Gibran Jordão

As seis ondas longas em forma de “V”

A imagem acima é uma representação gráfica das seis ondas longas de Kondratiev analisadas de “pico a pico”, cada onda ganha um formato de “V”, com a fase (B) representando um período de recessão ou baixo crescimento, e a fase (A) representando a banda de crescimento/ascensão econômica da onda. Assim, de 1760 a 2030 temos a sistematização de seis ondas longas, atualmente estamos localizados numa fase de recessão/baixo crescimento econômico mundial, ou seja, a fase (B) que dá início à sexta onda longa. Em geral, as fases B – recessão – são também momentos de introdução e/ou ajustes estruturais envolvendo novas tecnologias que estão sendo testadas, aprimoradas e adaptadas, sem ainda terem ganhado ampla aplicação na indústria e nos mercados globais. Superada essa fase, à medida que as novas tecnologias são incorporadas e conseguem dar respostas robustas em produtividade com menores custos, ganhando aplicação concreta em larga escala global, entramos na fase (A) da onda, com o impulso tecnológico permitindo um novo crescimento econômico e aumento das taxas de lucro, que avança até atingir um pico de saturação, superprodução, e novamente se inicia uma nova fase de recessão/baixo crescimento – fase (B). Resumidamente, essa é a dinâmica de formação de uma onda ou ciclo de longa duração, que ganha aspectos mais complexos para seu entendimento quando as colocamos em perspectiva com a Revolução Industrial.

As três Revoluções Industriais em formato de “W”…

Cada Revolução Industrial tem apresentado um intervalo de aproximadamente 100 anos, o que na prática acaba consumindo um período equivalente a duas ondas longas – “dois Kondratievs/2K” – configurando um formato em “W”. Na imagem do gráfico acima, podemos visualizar os três “W” como a representação das fases de cada Revolução Industrial – Introdução, Expansão, Coordenação, Maturação. As Revoluções Industriais envolvem mudanças no sistema tecnológico e organizacional dos meios de produção, como também das relações entre trabalho, Estado e o capital. O processo que vai da invenção à viabilidade comercial é longo, complexo, e está atravessado não só por aspectos tecnocientíficos, mas também pelas disputas geopolíticas de toda ordem. Por exemplo, a eletricidade e o motor a combustão, invenções elaboradas na Segunda Revolução Industrial, surgiram no final do século XIX, mas só foram incorporadas no setor industrial com significativo impacto na produtividade da década de 1910 em diante. Os computadores já existiam nos sistemas de algumas empresas na década de 1960, mas as tecnologias digitais só alcançaram ampla produtividade da década de 1990 em diante.

Para uma compreensão pedagógica das fases de uma Revolução Industrial, vamos observar mais uma vez o gráfico anterior. Em 1870, enquanto os retornos financeiros para a indústria dominante da Primeira Revolução Industrial entraram numa fase de decadência – fase (B) do 3º Kondratiev –, uma constelação de novas tecnologias começou a provocar o surgimento de uma nova indústria, iniciando a fase de introdução, com a eletricidade, siderurgia e engenharia pesada. Quando esses elementos se generalizam e se encontram com o surgimento de grandes empresas que adotaram mudanças organizacionais como o Taylorismo, a Segunda Revolução Industrial muda de fase e entra no seu........

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