RBS, ideologia e a transparência como forma sofisticada de poder
RBS, fundada em 1957, expandiu-se via Rádio Gaúcha, afiliou TV Gaúcha à Globo em 1967 e adquiriu o Zero Hora em 1970, consolidando forte presença midiática no Rio Grande do Sul.
A partir da década de 1990, o grupo assumiu postura frontal contra a esquerda gaúcha, especialmente PT e MST, reforçando o consenso liberal regional.
A pesquisadora Christa Berger, em estudo sobre o MST e o Zero Hora, afirma que o jornal constrói narrativas ao selecionar, hierarquizar e interpretar fatos, não apenas refletindo a realidade.
Essa combinação de ideologia e discurso de transparência é vista como estratégia sofisticada de poder na formação do senso comum gaúcho.
A RBS pode ser compreendida como uma das empresas capitalistas mais engenhosas e bem planejadas da história política e midiática do Rio Grande do Sul. Não apenas por sua capacidade empresarial, por sua presença regional ou por sua integração com a televisão, o rádio, o jornal impresso, as plataformas digitais e os eventos, mas sobretudo por sua aptidão em transformar interesses particulares em linguagem pública, pública em aparência, mas profundamente estruturada por escolhas políticas, econômicas e ideológicas.
A própria narrativa institucional do Grupo RBS enfatiza sua origem em 1957, sua expansão a partir da Rádio Gaúcha, a associação da TV Gaúcha à Rede Globo em 1967 e a aquisição de Zero Hora em 1970, elementos que ajudam a entender sua centralidade na formação do senso comum gaúcho.
1. A construção histórica de uma hegemonia regional
Há cerca de três décadas, a empresa assumiu uma posição frontal contra setores da esquerda gaúcha, especialmente contra o PT, contra o MST e contra experiências administrativas que tensionavam o consenso liberal então dominante. Essa oposição não precisa ser lida apenas como preferência eleitoral explícita; ela se manifestou, antes, como uma pedagogia cotidiana da opinião pública.
A análise de Christa Berger em Campos em confronto: a terra e o texto, obra derivada de sua tese de doutorado sobre as relações entre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e o jornal Zero Hora, é decisiva nesse ponto porque permite deslocar a crítica da mídia do plano moral — “o jornal é contra ou a favor” — para o plano mais complexo da produção social de sentidos. Berger não pergunta apenas se a cobertura foi justa ou injusta. Sua questão é mais profunda: como o jornalismo transforma acontecimentos produzidos por um movimento social em eventos significativos para seus leitores urbanos, suas elites políticas e seus anunciantes?
O ponto forte da autora está em tratar tanto o MST quanto Zero Hora como campos de produção simbólica. De um lado, o MST não aparece apenas como objeto passivo da notícia, mas como movimento que também produz acontecimentos, discursos, imagens, palavras de ordem, ocupações, marchas e estratégias de comunicação. De outro, Zero Hora não aparece como espelho transparente da realidade, mas como instituição que seleciona, hierarquiza, interpreta e traduz esses acontecimentos segundo uma gramática própria do campo jornalístico. O encontro entre ambos não é, portanto, um encontro neutro entre fato e relato; é uma disputa entre duas formas de mediação: a mediação política da terra e a mediação jornalística do texto.
Essa distinção é importante porque impede uma leitura simplista segundo a qual haveria primeiro um fato puro — a ocupação, o acampamento, o confronto, a marcha — e depois uma notícia que apenas o reproduziria. Para Berger, o jornalismo constrói o acontecimento ao narrá-lo. Ele decide quais vozes terão autoridade, quais imagens sintetizarão o conflito, quais palavras nomearão os sujeitos envolvidos........
