Estamos lutando contra uma máquina de ganhar eleições
A política dentro da máquina
Em 1989, no meio do processo eleitoral do primeiro sufrágio universal após 20 anos de regime militar, o apresentador e empresário Silvio Santos entrou como candidato no lugar de Raimundo Correia, do Partido Municipalista Brasileiro.
Em sua propaganda eleitoral na TV Silvio Santos emulava seu programa de domingo, e precisava ensinar a seus eleitores que, na hora de votar, não era seu nome que estava na cédula, e sim do candidato anterior, pois não havia tempo hábil para a mudança. Felizmente a candidatura do “homem do Baú” foi impugnada, as regras do processo eleitoral foram aprimoradas e vieram as urnas eletrônicas.
Contudo, a partir de 2014 o mundo e a sociedade brasileira experimentaram uma mudança tecnológica radical e que também implicou em grandes transformações no modo de debater e fazer política. Talvez a sociedade como um todo, especialmente o campo progressista, não tenha conseguido se adaptar a esses modos de fazer democracia.
A eleição de 2026 ocorre em um Brasil profundamente conectado. No fim de 2025, 185 milhões de pessoas usavam a internet no país, o equivalente a 86,9% da população, e havia cerca de 150 milhões de identidades de usuários em redes sociais. Entre pessoas com 16 anos ou mais, o consumo de mídia on-line alcançava, em média, 53 horas e 30 minutos por semana; somente as redes sociais ocupavam 29 horas e 7 minutos.
Esses números atualizam e ampliam o cenário de 2018: o problema já não é saber se a política acontece também na internet, mas compreender o que ocorre quando grande parte da vida social, da informação e da disputa eleitoral passa por plataformas privadas (DATAREPORTAL, 2025).
A concentração econômica também mudou de escala. Em outubro de 2026, Nvidia, Apple, Alphabet, Microsoft e Amazon figuravam entre as cinco maiores empresas listadas nos Estados Unidos, com valor de mercado conjunto superior a 21 trilhões de dólares; a Meta aparecia entre as dez primeiras.
A antiga imagem das “Big Five” precisa, portanto, ser corrigida: mudaram as posições internas, mas se aprofundou a concentração da infraestrutura que sustenta a inteligência artificial, os sistemas operacionais, a nuvem, a publicidade e as redes sociais. Não se trata apenas de poder econômico. É também poder para organizar o ambiente em que a política circula.
É nesse ambiente que ainda digerimos o primeiro turno de 4 de outubro. Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, ou 47,03% dos válidos; Lula obteve 53.876.617, ou 45,16%. Na véspera, o Datafolha apontava 45% para Lula e 42% para Flávio, com margem de erro de dois pontos. Lula terminou praticamente no patamar medido; Flávio chegou cinco pontos acima da estimativa central. A diferença não prova fraude nem causalidade tecnológica. Ela produz uma pergunta: o que aconteceu entre a última pesquisa e a urna?
Minha hipótese nasce de uma sensação política, mas precisa deixar de ser apenas sensação e tornar-se problema de pesquisa. Desde 2018, algo muito potente se acoplou à democracia brasileira. Não se trata apenas de propaganda feita por meios digitais. Trata-se da emergência de uma máquina eleitoral sociotécnica. A metáfora é incômoda, e justamente por isso pode ser útil: em diferentes partes do país, o deslocamento parece ter ocorrido como se alguém tivesse “apertado um botão”.
Esse botão, contudo, não precisa existir como comando único. Pode estar distribuído entre milhões de aparelhos, sistemas de recomendação, campanhas, produtores de conteúdo e usuários que reagem uns aos outros em alta velocidade.
Viscosidade, cismogênese e o antirrei
Até o início dos anos 2000, a internet e os computadores eram descritos como partes de nossas vidas. Hoje, a relação parece invertida: a vida social, a arte, a criatividade e a ação política estão cada vez mais inscritas em ambientes digitais governados por arquiteturas algorítmicas.
É essa inversão que Letícia Cesarino analisa em “O mundo do avesso”. Apoiada na cibernética e na antropologia, a autora oferece três conceitos decisivos para pensar a democracia digital: viscosidade, cismogênese e antirrei.
A política digital não acontece em uma entidade abstrata chamada internet, mas principalmente em plataformas privadas. A internet é a rede técnica; as plataformas são ambientes programados que hierarquizam conteúdos, regulam velocidades e distribuem visibilidade.
Cesarino usa a metáfora da viscosidade para mostrar como a digitalização altera a relação entre tamanho, posição e velocidade no sistema. Em uma célula, a viscosidade do citoplasma ajuda a impedir que organelas colidam ao acaso. Nas plataformas, a redução da viscosidade permite que conteúdos periféricos atravessem rapidamente fronteiras antes mais estáveis entre ciência, opinião, entretenimento e delírio conspiratório.
Isso ajuda a explicar por que uma teoria estapafúrdia pode disputar autoridade com o conhecimento científico, por que um boato local ganha escala nacional e por que a celebridade algorítmica não guarda proporção com talento, formação ou responsabilidade pública.
A questão não é apenas o conteúdo falso, mas a reorganização do ambiente em que verdade e relevância são produzidas. O engajamento e o investimento econômico podem deslocar para o centro aquilo que antes permaneceria marginal.
A baixa viscosidade favorece........
