menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

De contos a cêntimos: Ou quando mil escudos viraram cinco euros

31 0
26.02.2026

De contos a cêntimos: Ou quando mil escudos viraram cinco euros

Mário Afonso - 26/02/2026 - 9:01

Em 1 de janeiro de 1999, o euro tornou-se a moeda oficial de Portugal — ainda invisível, restrita a transações não físicas — enterrando o escudo criado em 1911 pela República. Três anos depois, em 1 de janeiro de 2002, as notas e moedas entraram em circulação. Seguiu-se um breve período de dupla afixação de preços, em escudos e euros, até que, a 28 de fevereiro desse ano, o escudo deixou definitivamente de ter curso legal. A taxa de conversão ficou fixada: 1 euro equivalia a 200,482 escudos.

Contado assim parece fácil. Um conto de fadas. Mas não foi. Todas as mudanças implicam novos desafios, algo que se perde, algo que se ganha.

Lembro-me bem do desconforto que foi pagar as primeiras coisas em euros. Não porque fosse complicado — as contas faziam-se com uma tabela dobrada no bolso, às vezes com calculadora, outras a fazer conversões mentais — mas porque o dinheiro parecia subitamente perder peso. Onde antes mil escudos tinham corpo e presença, cinco euros pareciam pouco mais do que trocos. A troca do escudo pelo euro não foi apenas uma mudança de moeda. Foi uma mudança de forma de pensar o valor. A troca do escudo pelo euro não foi apenas uma mudança de moeda. Foi uma mudança na forma de pensar o valor. As gerações mais novas já nasceram dentro dessa lógica, mas para muitos portugueses a conversão para escudos tornou-se quase automática, uma necessidade para perceber a real dimensão dos preços. O escudo saiu da carteira, mas não da memória.

A mudança foi um marco importante na história económica de Portugal, integrando o país na União Económica e Monetária e facilitando o comércio e turismo na Europa. Estávamos, dizia-se, no coração da Europa. Havia razões para o entusiasmo. O euro aparecia como um selo de credibilidade, uma âncora que nos ligava às economias mais sólidas da europa.

E, durante algum tempo, funcionou. O crédito tornou-se barato, comprar casa pareceu finalmente possível para muitos, viajar ficou mais simples. Mas foi também aí que começaram os excessos. O crédito fácil substituiu a reforma difícil. Endividámo-nos mais do que crescemos.

Quando as crises chegaram — e chegaram — já não tínhamos escudo para desvalorizar nem política monetária própria para ajustar. Restou o ajustamento interno. Apertar. E de que maneira.

A adesão ao euro foi uma escolha. Uma escolha que trouxe estabilidade, mas exigia disciplina; que trouxe integração, mas pedia reformas; que trouxe uma moeda forte para

um país estruturalmente frágil. O problema não foi o euro em si, mas a ilusão de que ele faria sozinho o trabalho que cabia ao país fazer.

Hoje, é relativamente consensual que a entrada no euro trouxe a Portugal maior estabilidade monetária, juros mais baixos e uma integração mais profunda na economia europeia, facilitando o investimento e o comércio. Em contrapartida, retirou instrumentos importantes, como a política monetária própria, e expôs fragilidades estruturais que se tornam mais visíveis em períodos de crise.

O euro não foi apenas “bom” ou “mau”. Trouxe ganhos claros, mas também custos que Portugal nem sempre soube — ou conseguiu — compensar.


© Reconquista