Retratos: Acordo
JC - 05/03/2026 - 9:00
Jeremias, presidente da Brigada do Reumático, é do tempo em que a palavra dada era uma palavra honrada. - “O problema são as meias tintas”, disse o líder da BR, ele que defendeu a mãe pátria em terras de África, sem perceber muito bem porquê. - “No nosso tempo bastava um aperto de mão. Não era preciso mais nada. Agora o compromisso verbal faz-se de uma forma e o resto vem com linhas tortas”, disse Godofredo, secretário-geral da BR, que tem saudades da época em que não havia zigue zagues nas decisões políticas. - “Os tempos são outros, amigos Jeremias e Godofredo. O Governo da Nação Lusitana diz hoje uma coisa, apregoa a defesa do interior do país, e depois legisla em sentido contrário”, sublinhou Evaristo, ciente que o peso das palavras é outro. - “O problema vem do novo acordo ortográfico”, esclareceu Jolas, adepto do Roseiral, da ala mais à direita do dito partido, que não se conforma com as teorias do politicamente correto em que alguns substantivos e adjetivos passaram a ser proibidos. - “É um 31!”, adiantou Jeremias, que não vê uma luz ao fundo da via que ligará as capitais ibéricas em autoestrada. - “Houve uma avaria generalizada nas máquinas e estas não puderam ir para o terreno, como prometeu a anterior ministra do Roseiral. Agora vão lançar o procedimento para mais um estudo, uma espécie de um doutoramento em que a revisão de literatura não tem mais fim”, sublinhou Jolas, que no seu diário de bordo ainda tem as contas da barragem do Aflito, outra palavra dada e não honrada. - “Que nunca lhes doam as mãozinhas e que comecem a sentir vergonha por não cumprirem o que prometem”, prosseguiu Jeremias, enquanto olhava com desconfiança para a notícia que veio do outro lado da fronteira onde é dada como certa a Estrada do 31. - “Se calhar em Castella também há um novo acordo ortográfico”, concluiu Godofredo.
