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Rituais de travessia

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14.03.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Sem me lembrar de quando cheguei a Portugal, dou-me conta de que se anuncia o momento de cruzar um novo ritual de travessia: um pedaço de plástico com uma data de expiração recorda-me da fragilidade da minha permanência neste território. Sempre me pergunto o que vim fazer cá, deste lado da “poça”. Do oceano. Do continente. Antigamente, “do outro lado da poça” era sobre cruzar a Baía de Guanabara de uma das pontas do eixo Rio–Niterói. Agora é sobre todo o Atlântico.

As distâncias brasileiras dão conta de quilometragens que cruzam países europeus inteiros dentro do espaço equivalente a uma única região do nosso país continental. Eu demorava pelo menos seis horas para sair do meu estado e parar no vizinho mais próximo: São Paulo, já um quase primo. Hoje, em quase seis horas, eu cruzo o país inteiro, e o quase primo está a pouco mais de três horas do Porto e chama-se Lisboa.

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Para quem vem do Brasil, levar menos de um dia para cruzar um país é algo quase tão absurdo quanto ainda ver a luz do sol quase às nove da noite, o que é outro ritual de travessia quando chega o verão por cá. Ainda sobre as perspectivas de distâncias, lembro-me de uma das primeiras viagens que fiz no ano em que me tornei imigrante: saímos da França em direção à Holanda, por rodovia, e a Bélgica estava no meio do caminho apenas para ser o ponto de paragem para um café. Em contrapartida, na época da faculdade, saímos do Rio de Janeiro no ônibus da universidade para irmos a um congresso de sociologia em Pernambuco, e levamos um pouco mais de um dia só para cruzar a Bahia.

Na última semana, segui com um grupo de amigas para Bragança, para espreitar as amendoeiras em flor. Até então, desconhecia esse espetáculo sazonal do Norte de Portugal, que marca a despedida do inverno para anunciar os primeiros sinais de uma primavera que se avizinha. Em Portugal, uma série de deslocamentos se justifica apenas no prazer da contemplação: ir à ponta do país para ver flores, subir a serra para ver neve ou ir à praia no inverno só para olhar o mar, a ponto de gerar engarrafamento na volta para casa. Nas minhas memórias do Brasil, as idas à natureza nunca ficavam só na contemplação. A gente se lambuzava de tudo, se jogava nas águas das praias e dos rios, subia nas pedras e montanhas, deitava na grama. A contemplação era a consequência de algum mergulho sensorial que motivava o deslocamento.

Em nossa viagem de carro rumo às amendoeiras, Bragança nunca mais acabava e, quando vimos, nosso roaming de dados já acusava território espanhol. Uma delas perguntou se já estávamos fora do nosso país. Nosso país? Meu país ou a pátria dos outros? Lembro-me mais uma vez dos documentos que preciso renovar. Penso que, mesmo se deixasse Portugal, os efeitos de viver há tanto tempo por cá já constituem uma marca identitária permanente na minha trajetória. Os papéis que fragilizam a minha permanência não conversam com a consistência dessa experiência. Os deslocamentos podem ser transitórios, mas seus ecos fazem do tempo em Portugal uma página que nunca será virada. Ao contrário, é página marcada com dobra na ponta.

Se eu vivo cá há anos e esta é uma experiência constituinte, como dizer que esse não é um pouco o meu país também? Sou luso-brasileira: meu bisavô era açoriano e já faz mais de dois anos que vivo cá. Será que ainda sou assim tão estrangeira? E se eu tivesse um cartão de cidadão, não mais seria estrangeira? Aos olhos de quem? Do Estado, dos outros estrangeiros ou dos portugueses? Meus amigos portugueses já me dizem: tu não és estrangeira para mim. Parece que já se acostumaram com a minha presença por aqui: um elemento que, aos olhos deles, deixou de estar deslocado e passou a fazer parte da composição do entorno, o estranho que se tornou familiar. Não sou estrangeira, mas nunca serei portuguesa, e isto não é mal. As raízes dos imigrantes são arejadas, como as das plantas que trocamos de vaso para que cresçam e ganhem uma nova vida, na expectativa de que se adaptem à transição e sejam nutridas antes do possível desvanecer.

Depois de um tempo longo em outro território, a relação de pertença extrapola o documento ou a hereditariedade e passa a ser sanguínea, a ponto de fazer arder nas veias: o território nos habita mais do que nós mesmos o habitamos. A cidade deixa de ser a que hospeda e passa a ser a que acolhe. Deixa de ser pano de fundo e vira meio personagem das nossas vidas. Sinto a ambiguidade do estranhamento do deslocado, do desencaixado, transmutar-se em alguma legitimidade na pertença.

Após mais de dois anos “do outro lado da poça”, a uma distância continental de um país que também é quase um continente, minha percepção de territorialidade está a mudar. A minha “casa” é um território afetivo cujas fronteiras estão demarcadas por memórias intercontinentais. Até a “poça” no meio do caminho é habitada por uma série de memórias de avião, que costuram as pontas das duas terras. Tudo o que acontece na vida que se vive dentro do avião se dá nesse território sem nome, o entremundos sobre o oceano que conecta países. Me reorganizo. Estar aqui é uma escolha. Desato o que me prende nas pontas dos extremos e aprendo a caminhar no encontro entre continentes. Solto os orgulhos e os caprichos do que até agora ainda não recuperei da minha “vida passada”, antes de imigrar, sem silenciar o que me moveu para cá. Mario Quintana disse que “amar é mudar a alma de casa” e, afinal, imigrar não é assim tão distante disto. Imigrar também é mudar a alma de casa e, de certa forma, aprender a se apaixonar por novas formas de vida. Dos outros, de si mesmo e da terra onde se escolhe aporta. Aventuremo-nos cautelosamente.


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