O chão do outro: a experiência franco-brasileira em solo português.
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As glicínias começaram a florir no início da primavera e coincidiu com minha chegada a Lisboa. Primeiro os galhos frágeis e já torcidos pela própria natureza. Depois, mais torções — essas já induzidas pelas minhas mãos — procurando apoio no muro e nos galhos dos vasos vizinhos do pátio. Há algo de humano numa glicínia: ela cresce precisando tocar outra coisa — um Outro.
Plantei as glicínias, a primeira delas no ano passado, no jardim do meu amigo francês que vive em Portugal há quase uma década. Eu, brasileiro, e ele, também imigrante, com a experiência profissional de ter vivido em cinco países antes de viver em Lisboa. Ele está fora durante algumas semanas e habitei sua casa enquanto trabalhava em outras fronteiras. Eu regava o jardim, nutria a terra, observava a luz mudar sobre os vasos e tentava compreender a estranha intimidade que existe em dormir dentro da vida — provisoriamente interrompida — de outro sujeito.
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Existe uma diferença enorme entre entrar num hotel e receber a chave da casa de alguém. A chave é sempre um risco. E talvez tenha sido ali, entre o crescimento silencioso das glicínias e a ausência temporária do dono da casa, que meu interesse pela imigração — que raramente se apresenta no debate público português — ganhou........
