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Honra e louvor à coragem de José Pacheco Pereira

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thursday

Há cerca de 20 anos, convivi com o professor José Mattoso em Timor-Leste. Por esses dias, escrevi um ensaio em que, tangencialmente, abordava um assunto que se prendia com matéria em que ele era mestre incontestável. Pedi então ao ilustre académico que lesse e comentasse o meu texto. Dias depois, voltámos a encontrar-nos, e ele vinha com uma inquietação: quem é X, que você cita e não conheço? Respondi, candidamente: o professor sabe que a sua área de especialização não é a minha praia, o livro de X que cito é um volume que pude ler aqui. Reconheço que parece fruto de algum “amador esclarecido”, já que o nome dele soa mais alto noutras paragens. E disse o nome do autor. Resposta imediata: isso não pode ser considerado bibliografia séria para um ensaio académico. Agradeci, referi que iria rever essa passagem, e depois pedi um novo favor: poderia indicar-me uma recensão académica de tal livro, cuja tiragem atingia largas dezenas de milhares de exemplares? Contristado, Mattoso exclamou: o problema é mesmo esse – ninguém se atreveu!

O desafio de José Pacheco Pereira a André Ventura tem semelhanças com o episódio que acabo de narrar. De um lado, teríamos um historiador comprometido em assentar as suas afirmações em evidências – escritas, orais, vídeos, objectos variados, tudo o que se usa em História Contemporânea; do outro, deveria ter havido quem honrasse os termos do desafio que aceitara, e pautasse a defesa dos seus pontos de vista não por qualquer ortodoxia ou heterodoxia apriorística, mas pelo primado da sustentação em evidência da natureza que lhe aprouvesse. Nada disso sucedeu: o interlocutor tem da História do 25 de Abril uma visão baseada numa série reduzidíssima de fontes, e não conseguiu expor nem o contexto nem a credibilidade da sua “evidência” (que creio bem que possa existir, mas não embrulhada nas ficções que tanto o encantam).

Um debate sobre o momento fundacional do Portugal Contemporâneo exigia que assim fosse. Falhado – parcialmente – o objectivo por óbvia inexistência de um chão comum, continua a ser pertinente que debates como o que Pacheco Pereira propôs possam ser alargados a outros participantes – mantendo a regra do primado da evidência sobre o “achismo” dominante.

O que falhou? Desde logo, um debate desta natureza requer um bom moderador. Ora, João Póvoa Marinheiro, que havia desempenhado a preceito essa função em momentos anteriores e era um candidato credível, deu a impressão de ter tido necessidade de ir namorar para a Costa da Caparica... Requer também que se use tecnologia que permita controlar com equidade os tempos e os modos das intervenções individuais. Sem esses dois pressupostos, os termos do debate podem formalmente ser aceites, mas não serão nunca respeitados – e ficamos todos a perder.

Como historiador que fui antes de me reformar, tenho um princípio: a História está em constante revisão, seja porque surge nova evidência, seja porque aparecem novas metodologias ou tecnologias de apoio, seja porque limites administrativos que limitam a História Contemporânea por imposição de períodos longos de “reserva” a fontes são afastados. Se a História não pudesse e devesse ser constantemente escrutinada e revista, os meus colegas de ofício estariam condenados ao desemprego perpétuo... Tendo vivido como jovem adulto a revolução de Abril, estou aberto a discutir tudo o que ela implica – com base em evidência credível.

Por muito que haja erros – indesculpáveis – no PREC, creio ser indesmentível que nenhuma autoridade pós-25 de Abril teve responsabilidade na morte de cidadãos – ao contrário do período anterior em que não chegam os dedos todos que a gente tem nas mãos e nos pés para os contar

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Nos meus tempos de estudante antes do 25 de Abril, li o livrinho de Marc Bloch Introdução à História. Nele se conta o episódio de um falso antiquário que pretendia vender “o crânio de Voltaire quando criança”. Hoje, assentar a visão das peripécias da Revolução dos Cravos no Relatório das Sevicias, cujos fundamentos – mas nem todos os relatos – foram amplamente contestados por um naipe de advogados que cobria um amplo leque político-ideológico, de Jorge Sampaio a José Miguel Júdice, assemelha-se a tal falcatrua.

Por muito que haja erros – indesculpáveis – no PREC, creio ser indesmentível que nenhuma autoridade pós-25 de Abril teve responsabilidade na morte de cidadãos – ao contrário do período anterior em que não chegam os dedos todos que a gente tem nas mãos e nos pés para os contar, do “médico dos pobres” Dr. Ferreira Soares (Nogueira da Regedoura, 1942) a José Dias Coelho (Lisboa, 1961), de Humberto Delgado e Arajaryr Campos (Villanueva del Fresno, 1965) a Catarina Eufémia (Baleizão, 1954).

“A confiança cega na autoridade” – e o desprezo pela evidência – “é a maior inimiga da verdade” (Albert Einstein). Galileu Galilei não diria diferente.

Alguém se lembra de James F. Blake, condutor de autocarros em Montgomery, Alabama (EUA), que, no dia 1 de Dezembro de 1955, insultou uma passageira negra, intimou-a a levantar-se para dar lugar a um homem branco, forçou-a a sair, entregou-a à polícia para ser detida? E da costureira Rosa Parks, que a tudo foi resistindo pacificamente, acabando por se tornar uma das principais heroínas dos movimentos pelos direitos cívicos que transformaram (para melhor) a América nos anos 60?

Aposto que sei de quem se irá lembrar, dentro de 50 anos, quem conversar serenamente sobre o 25 de Abril – se, entretanto, houver mais vozes que não temam ventos e marés e recusem o confronto de assistir de longe... Não inventemos álibis para permanecer calados!

Historiador reformado, sócio/colaborador da Ephemera


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