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Mais de 70 anos da estrutura do ADN: o que nos contou e o que esconde sobre a doença

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Durante décadas, o ADN foi visto como o “manual de instruções” da vida – um código preciso escrito em quatro letras. Desde a descoberta da estrutura de dupla hélice, em 1953 – assinalada a 25 de abril –, a biologia pareceu reforçar essa ideia: se conseguíssemos ler esse código, conseguiríamos compreender a doença. Em alguns casos, essa promessa cumpriu-se.

Para muitas doenças genéticas raras – incluindo síndromes identificadas apenas nos últimos anos –, a possibilidade de sequenciar o ADN, isto é, ler diretamente a sua sequência, transformou profundamente a medicina. Crianças que antes passavam anos em exames inconclusivos – a chamada “odisseia diagnóstica” – podem hoje obter respostas em poucas semanas, ao identificar mutações – pequenas alterações nas “letras” do código genético. Em muitos casos, revelam-se doenças que nem sequer tinham nome até serem reconhecidas diretamente a partir do ADN. Por vezes, o diagnóstico genético não só permite compreender a doença, como já orienta terapias inovadoras que atuam diretamente sobre a sua causa genética – algo impensável há apenas uma década.

Mas esta história de sucesso pode levar à ilusão de que todas as doenças podem ser identificadas diretamente na sequência do ADN. A maioria não pode.

A maioria das doenças humanas não resulta de um único erro genético – e, mesmo quando a genética contribui, fá-lo de forma complexa e pouco determinística. O cancro, por exemplo, é também uma doença genética, mas raramente hereditária. Surge de mutações que se acumulam ao longo da vida, moldadas pelo ambiente, pelo envelhecimento e por erros celulares. Mesmo quando identificamos mutações num tumor, é difícil prever com exatidão o seu comportamento ou a resposta ao tratamento.

O cancro é frequentemente heterogéneo e instável: as mutações diferem entre células e estão em constante evolução. Mesmo em formas hereditárias, como o cancro da mama e do ovário associado a mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2, estas mutações conferem probabilidades – não certezas.

Porquê? Parte da resposta é que o ADN é um código, mas o seu significado depende de como é lido e interpretado pelas células. O código, por si só, não basta: é como um livro que pode ser lido de formas diferentes. E essa leitura não é fixa – varia entre tecidos, ao longo do tempo e em resposta ao ambiente. O mesmo ADN pode dar origem a comportamentos distintos, dependendo de como é regulado. Todas as células contêm a mesma informação, mas cada tipo celular acede apenas a partes desse “livro”, e é essa leitura seletiva que faz com que células do olho sejam diferentes das células da pele.

Além disso, o ADN tem de ser constantemente copiado, reparado e distribuído ao longo de milhões de divisões celulares. Este processo é altamente preciso, mas não infalível: erros ocorrem inevitavelmente. Na maioria dos casos, são corrigidos por mecanismos celulares de controlo. Mas nem sempre. Pequenas alterações podem escapar, acumular-se e divergir entre células ao longo do tempo.

É esta combinação – interpretação variável, acumulação de erros e controlo imperfeito – que faz com que o ADN raramente determine um destino e acabe por definir probabilidades.

Mesmo com os enormes progressos na leitura do genoma, esta complexidade não desaparece. A sequenciação revolucionou o diagnóstico e abriu caminho à medicina personalizada, especialmente no cancro, permitindo orientar decisões clínicas de forma mais informada e precisa do que nunca. Mas também revelou os seus limites: o ADN raramente determina, por si só, o desfecho da doença. Ler o genoma não é o mesmo que compreender o seu funcionamento.

Mais de 70 anos após a descoberta da dupla hélice, e duas décadas após a sequenciação do primeiro genoma humano, importa reconhecer tanto o alcance como os limites deste conhecimento. O ADN continua a estar no centro da biologia, mas é apenas parte da história. O futuro da medicina não passará por abandonar o ADN, mas por ir além dele, integrando a sequência com a forma como é utilizada, regulada e transformada ao longo do tempo nas células.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico


© PÚBLICO