Uma política de verão e outra de inverno para o mesmo problema
Portugal lê mal o território.
No verão, quando as chamas devoram aldeias e os noticiários repetem as mesmas imagens há décadas, prometemos plantar árvores. No inverno, quando a água arrasta carros e entra pelas portas das casas, prometemos limpar as ribeiras. Reagimos sempre à crise da estação anterior, como se incêndios e inundações fossem problemas diferentes, que exigem soluções diferentes, geridos por ministérios diferentes.
Não são. São o mesmo problema; visto de dois ângulos.
Em setembro de 2024, três dias de meteorologia extrema bastaram para transformar um ano "exemplar" num dos piores da década. Até 31 de agosto, tinham ardido pouco mais de dez mil hectares; o valor mais baixo em dez anos. Em apenas 72 horas, entre 15 e 17 de setembro, arderam mais de 126 mil. O balanço final: 137 mil hectares destruídos, nove mortos, e um país a perguntar, mais uma vez, o que correu mal.
Agora, em janeiro de 2026, enfrentamos o risco das piores cheias em 25 anos. As albufeiras estão no limite. Os solos, saturados, perderam a capacidade de absorver mais água. A Agência Portuguesa do Ambiente alerta para "situação hidrológica potencialmente perigosa" nas bacias do Douro, Mondego, Vouga e Tejo. As depressões sucedem-se; Ingrid, Jana, Claudia; e a Proteção Civil contabiliza centenas de ocorrências: inundações, deslizamentos, quedas de estruturas.
E há uma frase nos comunicados oficiais que ninguém parece ler com atenção: os deslizamentos de terra são "potenciados pela remoção do coberto vegetal na sequência de incêndios rurais".
Eis a ligação que insistimos em não ver.
Uma paisagem........
