Uma língua sem política
Há ideias que, pela sua repetição, se transformam em evidência incontestada. Uma delas é a de que o português é uma grande língua global, falada por mais de 260 milhões de pessoas em vários continentes. A afirmação é apenas parcialmente verdadeira, e é nessa parcialidade que reside o problema.
Porque fora de Portugal e do Brasil, o português raramente é a língua que estrutura a vida quotidiana das sociedades — sendo que, no caso brasileiro, essa centralidade não assenta numa estratégia externa de promoção da língua. Em Timor-Leste, é a língua materna de menos de 1% da população, sendo o tétum dominante, enquanto o inglês e o indonésio ganham espaço nas relações externas. Em Moçambique, apenas cerca de 17% da população fala português como língua materna e menos de metade o utiliza com regularidade. Em Angola, apesar do crescimento nas áreas urbanas, a realidade continua marcada por uma forte coexistência com línguas nacionais, como o umbundu, o kimbundu ou o kikongo. Nos casos de Guiné-Bissau e Cabo Verde, o português é a língua oficial — mas não é a do dia-a-dia, lugar ocupado pelos crioulos.
Estes dados mostram que, em grande parte do espaço dito lusófono, o português é uma língua de escola, de administração e de mobilidade social, mas não de socialização primária. É........
